quinta-feira, outubro 24

60 anos sem uma única ruga


O mais célebre dos gauleses de ficção faz 60 anos. Para comemorar, hoje, temos nas bancas A Filha de Vercingétorix,  o 38º álbum da série, que acrescenta novas figuras a uma galeria de personagens que já vai em mais de 400. Desta vez, Adrenalina, a filha do chefe gaulês Vercingétorix (derrotado por Júlio César), refugia-se na pequena aldeia e vai criar "múltiplos distúrbios intergeracionais”. Não sei se o entusiasmo é justificado, mas desculpem o hábito.

terça-feira, outubro 22

Blue World



Após Both Directions at Once, é descoberta uma nova sessão de gravação inédita do quarteto de John Coltrane. A  24 de junho de 1964, Coltrane, McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones, gravaram um punhado de temas para Le Chat dans le sac, do cineasta canadiano Gilles Groulx. Ao contrário de Both Directions at Once, não temos inéditos, mas novas versões de ‘Naima’ (estreada em “Giant Steps”, em 1960), de ‘Village Blues’ (com origem em “Coltrane Jazz”, de 1961), de ‘Like Sonny’ (idem), de ‘Traneing In’ (com procedência no LP “John Coltrane with the Red Garland Trio”, de 1958) e uma reformulação de ‘Out of This World’, de Harold Arlen e Johnny Mercer (tema de abertura do álbum “Coltrane”, de 1962), fraudulentamente rebatizada como ‘Blue World’. Elas já surgiam no filme em pequenos excertos . Mas o interessante é pensarmos no filme, na sua banda sonora e no nome deste disco: Blue World. O filme inicia-se com Claude e Barbara a terminarem a sua relação ao som de ‘Naima’, tema que Coltrane havia dedicado a uma mulher e que, agora, gravava quando vivia com outra. Um mundo azul...

segunda-feira, outubro 21

Roy DeCarava



"A discussão da fotografia de DeCarava centra-se, em geral, nas suas fabulosas técnicas de impressão (a preto e branco) que contrastam nesgas de luz intensa e afiada com pretos mais escuros e densos do que o alcatrão, valorizando pelo caminho toda a gama de cinzentos intermédios (Neste campo, não tem rival.)"

Jorge Calado, Expresso, a propósito da exposição LIGHT BREAK, de Roy DeCarava, na David Zwirner Gallery, Nova Iorque, até dia 26.

sexta-feira, outubro 18

Nobel bofetada

Peter Handke não escreveu nenhuma ode a Estaline (como Brecht, sim, sim) nem a Milosevic, mas deu-se ao trabalho de colocar flores na campa do seu “libertador”. Isto para dizer que, felizmente, ainda vai havendo por cá quem saiba que um prémio a uma obra (até um Nobel) não representa um prémio ao cidadão. Cada um fala por si, claro, mas se eu próprio confundisse as coisas, não vos lia nem a metade. Espera-se que esta bofetada, não a minha, a do Guerreiro, doa muito.




"A decisão do júri da Academia Sueca que atribui o Prémio Nobel da Literatura está contaminada por um critério que dá origem a grandes equívocos: o critério da biografia política dos autores e do respectivo curriculum cívico. Levado às últimas consequências (felizmente, tal não é fácil, porque a literatura não é domesticável e rebela-se até contra si própria), este critério faria do prémio um julgamento dos pecados e das virtudes da pessoa dos escritores e não da sua obra. Na história da literatura universal, terá assim cabido à Academia Sueca escrever um capítulo edificante que pode ser intitulado A Literatura e o Bem, sem sequer se aproximar das catacumbas sombrias — um horror! — dessa história, onde prosperaram, em todos os tempos, uns energúmenos geniais que um celerado chamado Georges Bataille reuniu sob o signo do mal, em A Literatura e o Mal (1957). A contestação de que está a ser alvo o último premiado pelo Nobel da Literatura, o escritor austríaco Peter Handke, deriva da representação que o prémio criou, muitas vezes pelas suas escolhas e quase sempre pelas razões moralistas e até doutrinárias que ressaltam dos anúncios oficiais dos vencedores. O seu pecado, aquilo que o torna um premiado infame, é o ter defendido, apoiado e até homenageado o presidente sérvio Milosevic (sobre a história da relação de Peter Handke com a Eslovénia e a sua defesa da manutenção da federação jugoslava, ler as crónicas de João Barrento, que o PÚBLICO reeditou online). Os escritores, diz Hannah Arendt num ensaio sobre Brecht (encontramo-lo, em português, num livro intitulado Homens em Tempos Sombrios, Relógio D’Água), são para ser citados e não para falarmos deles. Falar deles significa confrontarmo-nos com o seu mau comportamento crónico; e não devemos deixar que isso perturbe a leitura da obra. Curiosamente, Hannah Arendt discorre sobre os “pecados” dos escritores num ensaio em que expõe e condena o engagement de Brecht, em especial aquele que ganhou a forma de uma “Ode a Estaline”, um “elogio dos crimes de Estaline, escrito e publicado em Berlim-Leste, mas pudicamente excluído da edição das obras completas”. Embora reconhecendo que Brecht é um dos grandes poetas alemães do século XX, Hannah Arendt não o desculpa: mostra que ele traiu os seus próprios princípios estéticos quando escreveu poemas como essa ode, quando escreveu “versos indescritivelmente maus, piores do que os de qualquer versejador de quinta categoria”; e mostra que ao “erro político” de Brecht corresponde um “erro literário”, uma vez que “os pecados reais do poeta são castigados pelos deuses da poesia”. Os poetas, diz Hannah Arendt, “podem permitir-se mais coisas do que o comum dos mortais”, mas essa prerrogativa acaba quando eles atraiçoam a sua própria obra. Os equívocos da Academia sueca começam precisamente nesta dificuldade em separar os “pecados” de ordem política e moral, que só comprometem o cidadão (e esse podemos muito bem ignorá-lo) daqueles que têm implicações nefastas no plano literário. E Arendt termina o seu ensaio, citando um adágio latino: “Quod licet Iovi non licet bovi”, o que é permitido a Júpiter não é permitido a um boi. Parece a concessão aos poetas de uma enorme vantagem, injustificada. Mas implica uma cruel contrapartida, é — diz Arendt — “uma faca de dois gumes”: esse direito que pode ser reclamado para o poeta faz, por outro lado, com que ele não possa fazer certas coisas sem deixar de ser quem era. Dito de outra maneira: Brecht pôde muito bem cometer o pecado de tecer louvores a Estaline, mas esse louvor plasmado numa ode digna de “um versejador de quinta categoria” é como que uma passagem de Júpiter a boi. Peter Handke não escreveu nenhuma ode a Milosevic, não fez dele a sua matéria literária: defendeu-o publicamente, pôs-lhe flores na campa, escreveu um livro apologético sobre “uma viagem de Inverno” pela Sérvia. Foi das poucas vezes em que saiu do seu exílio de escritor misantropo, entregue ao insuportável “peso do mundo”. Porque há-de o escritor ser julgado, no momento em que é atribuído um prémio à sua obra (assim deveria ser), por aquilo que o cidadão austríaco, filho de mãe eslovena, cometeu por determinações mítico-edipianas?".

terça-feira, outubro 15

"Mais vale ser surdo que ensurdecido"


Em dia de aniversário de Friedrich Nietzsche (15 de Outubro de 1844 — 25 de Agosto de 1900), recorde-se este pequeno ensaio — outros encontram-se para “download” gratuito e legal no “site” da brasileira Zazie Edições.

“Um dos livros mais singulares da história da filosofia é o pequeno e enigmático Ecce homo. Último livro anterior ao colapso, foi escrito por um Nietzsche extremamente feliz que flanava na beleza ensolarada das ruas de Turim, conversando com os vendedores de frutas, tomando sorvete, surpreendendo-se com as delícias e o preço baixo da cozinha piemontesa, deslumbrando-se na Galleria Subalpina, para ele “o mais belo e elegante lugar do género”. Era 1888, ano de espetacular e mesmo febril exuberância intelectual – fato que tanto pode afastar quanto justificar as suposições de desequilíbrio psíquico com que se procurou dar conta da estranheza desta autobiografia ou do que quer que seja o problemático livro, quase insuportável em sua megalomania.”

Katia Muricy, Ecce homo: A autobiografia como género filosófico 

segunda-feira, outubro 14

“Só falta começarem a partir-me os vidros das janelas”


Ainda não sei se Harold Bloom irritava mais pelo seu "cânone" de homens brancos, ocidentais, masculinos e todos mortos ou por achar que já nada se faz de novo. Se tiver sido por esta última, a discussão interessa-me. A que "novo" se referia ele? O criado pelo modernismo? O que enfrenta os gigantes da tradição literária, "acende" e repete? Bloom gostou de Saramago, de Eça, de Pessoa e de Camões. Não tive ocasião de lhe enviar um exemplar da Agustina, do Lobo Antunes e (para ganharem os vivos) do Gonçalo M. Tavares. O meu tempo é caótico. Como a nossa idade, creio.

"Leitor omnívoro e voraz – gabava-se de ler e absorver 400 páginas numa hora e de saber recitar de cor toda a poesia de Shakespeare, o Paraíso Perdido de Milton e ainda a obra completa de William Blake –, Bloom foi também um dos mais polémicos críticos da sua geração, com a sua defesa intransigente daqueles que via como os grandes criadores da tradição literária ocidental, cujo estatuto via ameaçado pelos sectores académicos a que chamava a “escola do ressentimento”, na qual incluía o marxismo, o multiculturalismo ou o feminismo. “Só falta começarem a partir-me os vidros das janelas” (...) E se a academia torce o nariz tanto às opiniões como à popularidade de Bloom, que crê interligadas, o crítico responde na mesma moeda: “Aí por 1990 cheguei à conclusão de que não valia a pena escrever para um único académico. (…) O que me dá forças para viajar tanto, nesta idade, é que, em todo o lado onde falo, me aparecem verdadeiros leitores. São brancos, negros e asiáticos, são homossexuais e heterossexuais, são velhos e novos, ricos e pobres. São leitores. Pessoas completamente indiferentes a todo esse lixo que se ensina nas universidades”.

Luís Miguel Queirós, "Obituário", Público.

domingo, outubro 13

Aviso à navegação

 

Javier Camarena (n. 1976) tem aquela voz invulgarmente sedosa e bonita. Recorta uma figura simpática e, para já, sem bravata exibicionista. Ando a ouvir, maravilhado, este Contrabandista, o primeiro recital operático de Camarena. Bartoli é omnipresente neste disco, mas como indica o título, o CD é uma homenagem a Manuel García, o andaluz carismático que não só cantava, representava, ensinava, compunha, escrevia e geria companhias de ópera como também ficou famoso por ser pai de María Malibrán e Pauline Viardot, por accaso, as maiores cantoras do seu tempo. A seleção e a variedade dramática e linguística (espanhol e francês) das obras escolhidas, demonstram bem a vontade e o dominio de Camarena.