Giacomo Leopardi, rapaz do século XVIII, estaria hoje de parabéns (29.06.1798–14.06.1837). A sua biblioteca de 25.000 volumes é, por si só, recomendação absoluta — e consolo existencial para quem possui apenas 1% disso, boa parte ainda por ler e outra por reler como deve ser.
Mais difícil é imitar-lhe o alívio existencial: olhar pela janela e separar o mundo exterior — a realidade — do mundo interior — o fingimento.
Poucos o conseguiram tão bem. Pessoa, certamente. E, com ele, Maria José e o Barão de Teive — cada um à sua janela, cada um entregue às suas próprias dores, como Bernardo Soares à da Rua dos Douradores.
"Pessoa atribui a Leopardi e aos outros dois poetas a atitude romântica de serem incapazes de conceber a realidade como algo situado fora deles próprios, atribuindo essa atitude, no caso de Leopardi, à falta de relacionamento com o sexo oposto. Leopardi aparece pela última vez num poema que lhe é inteiramente dedicado: Canto a Leopardi (Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa vol. I, org. de António Quadros, Lello & Irmão, Porto 1984, p. 406. Mas além da ironia e dos aspectos biográficos, a presença leopardiana em Pessoa é bem sintetizada no semi-heterónimo Barão de Teive que, tal como Bernardo Soares, encara muitas facetas do próprio Pessoa. O Barão encara os aspectos mais intelectuais de Leopardi, mais especificamente retoma a atitude estóica que o poeta italiano adopta nos últimos anos da sua vida. O fidalgo criado por Pessoa pertence à aristocracia, tal como Leopardi (que era conde), e tal como ele encara a nobreza como um elemento de distinção em relação ao homem comum, que o Barão observa pela janela e que desperta nele pensamentos mais altos, recalcando a estrutura da maior parte dos Canti de Leopardi. O alívio existencial de olhar à janela, enfatizado em Maria José e no Barão, é uma constante de toda a obra de Pessoa: desde a janela em Rua dos Douradores de Bernardo Soares àquela dos poemas de Álvaro de Campos; tal como em Leopardi, a janela é o elemento de separação/ligação com o mundo exterior e o mundo interior, confim entre realidade e fingimento, instrumento necessário à poesia."

“A sabedoria económica deste século pode medir-se pelas chamadas edições compactas, em que é pouco o gasto de papel e infinito o da vista. Embora se defenda a poupança de papel nos livros, pode alegar-se que o costume do século é imprimir-se muito e nada se ler. Desse costume faz também parte o abandono dos caracteres redondos, utilizados comummente por toda a Europa nos séculos passados, e a sua substituição pelos caracteres longos, a que se adiciona o brilho do papel; coisas tão belas de se ver quanto nocivas para os olhos na leitura, mas bem razoáveis num tempo em que os livros são impressos para serem vistos e não para serem lidos.”
















