António Lobo Antunes vai adormecer o país com a cor que lhe serve bem: um cinzento. Não um cinzento de preguiça, não um cinzento de nevoeiro turístico, mas um cinzento de lucidez, aquele cinzento que não consola, não adoça, não põe flores na lapela do cadáver. Um cinzento que diz: isto aconteceu, acabou, acabou mesmo, e agora vejam lá o que fazem com o silêncio.
Porque o desaparecimento não é só o de “um grande escritor”, essa fórmula de prateleira que cabe no telejornal; é uma geração que vai partindo — e sente-se. É a geração que teve de escrever o país quando o país ainda não sabia como se escrever, quando o país se enganava na própria caligrafia, quando o país fazia de conta que não sabia o que tinha feito, e alguém tinha de pegar naquilo e pôr-lhe um nome, e pôr-lhe um ritmo, e pôr-lhe uma frase que doesse.
Sejamos honestos: custa lê-lo. Custa. Não é leitura de sofá, é leitura de batalha. Eu só conseguia com o lápis na orelha, como quem vai ao combate e leva uma lâmina pequena para marcar o golpe. Mas, por muito que custe, à frente de muitos esteve ele. Pegou no romance psicológico e transformou-o num motor de atrito, um motor de guerra, a empurrar a história portuguesa, viva, sem maquilhagem, com a Europa e a herança colonial a queimarem por dentro da frase, a queimarem, a queimarem, como queimam as coisas que se fingem resolvidas e continuam lá, no osso.
E entretanto, sem pachorra: começa o ritual nacional. O elogio tardio, o respeito postiço, a unanimidade higiénica. A mesma cultura que o achava “difícil” e “excessivo” trata-o agora por património, como se o património fosse uma gaveta onde se mete o que incomoda, com uma etiqueta por fora e um pano por cima. Em Portugal, a morte é uma excelente editora: distribui louvores como quem distribui santinhos e, de repente, toda a gente “sempre admirou”, toda a gente “sempre leu”, toda a gente “sempre soube”. Pois.
Lobo Antunes escreveu como quem contrai e transmite e contagia. Uma virose, disseram-lhe, e ele gostava da imagem: doença benigna e perigosa, porque se apanha e custa a largar. Lê-se cedo e fica-se doente — doente de ritmo, doente de repetição, doente de vozes que entram e saem e entram, doente daquela página que não se limita a conter palavras: impõe respiração, impõe pancada, impõe insistência. E depois vem o trabalho de resistência — não para o negar, mas para não ficar a escrever como ele, como se o estilo fosse febre instalada em cada mão.
E o arco é este: dos livros que abriram caminho — e que muitos citarão agora como se os tivessem lido de verdade — até à fase em que o romance se dissolve no trabalho da linguagem, há uma coragem que poucos têm e quase ninguém perdoa. A história deixa de ser o centro; o centro passa a ser a frase, a metáfora, o ritmo, o modo como uma imagem volta, e volta, e volta, até se tornar faca. Não há conforto. Há trabalho. E ele tinha razão: escrever é trabalho, trabalho, trabalho — ao contrário do folclore literário, que prefere a pose ao ofício e, claro, vende melhor.
No meio disto tudo, a única ideia que interessa — a única que é séria — é a continuidade da leitura. Sem lágrima performativa, sem citação apressada, sem o “grande escritor e tal” enfiado entre um anúncio e um comentário. Abrir os livros e aguentar o embate. Aguentar, mesmo. Porque aquilo não foi escrito para agradar: foi escrito para ficar.
E há ainda um último paradoxo, quase uma ironia de bastidores: em abril deverá sair um volume inédito, o único de poesia. Diz-se que “sempre lamentou não ter sido poeta”. Portugal vai fingir surpresa, como finge sempre. Mas quem escreve como ele escreveu tem essa fome antiga: querer outra forma, outro corte, outra música — não por capricho, mas por necessidade, porque a frase, quando é a sério, nunca chega, nunca chega, e é por isso que se volta a ela.
Nota final, para quem gosta de miniaturas que dizem tudo sem explicar nada: Carlos Vaz Marques contou que o foi entrevistar ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era psiquiatra. A meio, bateram à porta. “Entre.” Surge um homem de olhar vago, na farda hospitalar, atira uma chave e sai. “Pedi-lhe para me ir arrumar o carro”, explica Lobo Antunes. E, sem mudar o tom, remata: “É um tipo porreiro. Matou o pai.” É isto. A frase como lâmina. O real sem verniz. E a literatura a não pedir licença.















