David Mourão-Ferreira (Lisboa, 24 de fevereiro de 1927 — Lisboa, 16 de junho de 1996) aniversariante do dia, sobre José Régio (para fugirmos os ecos parciais do poeta do erotismo como se explica mais abaixo aos leitores mais pacientes):
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“22 de Novembro (1947), 5 e meia da tarde, Pastelaria Smarta. — Ontem, depois de almoço, soube pelo Tomaz Ribas que o José Régio está em Lisboa, instalado no Hotel Metrópole (“Até terça-feira. Vem assistir à estreia da Benilde…“). E, hoje de manhã, enchi-me de coragem e telefonei para o Hotel. Conversa telefónica de que mal me recordo. Sentia-me aflito, sem saber como apresentar-me. Mas, enfim, combinou vir aqui ter às seis e meia. Cheguei com uma hora de avanço.
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24 de Novembro, 11 da manhã, Café Chave d’Ouro. — Sábado, na Smarta, depois de tomado o apontamento anterior, peguei num livro decidido a tentar ler. Mas os meus olhos só espiavam a porta e, em cada pessoa que entrava, julgavam sempre encontrar, ao primeiro relance, semelhanças com José Régio. Até que ele finalmente apareceu. Vinha acompanhado por um rapaz dos seus vinte e poucos anos (seu irmão mais novo segundo depois me disse), de quem, contudo, logo a seguir se despediu. Eu, mal o vira, tinha-me erguido e apresentei-me. Sentámo-nos. Uma indescritível consciência de que estava ali com um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos perturbava-me e impedia-me de articular duas ideias, de construir uma frase. Lá consegui vencer essa infantil perturbação e comecei por lhe pedir desculpa da minha audácia em lhe ter telefonado e em lhe ter pedido um encontro a sós com ele – audácia de que eu próprio me espantava, porquanto há quatro anos andava para lhe escrever uma carta, sem que, porém, jamais me decidisse.
(...)”
David Mourão-Ferreira, Os Íntimos Degraus - diário inédito de 1947-1953, publicado no JL – jornal de letras, artes e ideias, n.º 25 do ano I, de 2 a 15 de Fevereiro de 1982.

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David Mourão-Ferreira confessou ter procurado conhecer José Régio como nunca lhe acontecera — nem voltaria a acontecer — em relação a qualquer outro autor que admirou em vida. Fixou por escrito as impressões desse encontro numa espécie de diário íntimo que tencionava publicar, mas que nunca chegou a ver a luz do dia. Chegou, aliás, a antecipar-lhe o título: Os Íntimos Degraus. O texto encontra-se no JL, n.º 25, Ano I (2 a 15 de fevereiro de 1982), numa das muitas rubricas que o jornal dedicou a David Mourão-Ferreira.
Na celebração do aniversário, afasto-me, assim, do lirismo de índole erótica a que, hoje, parece condenado o autor. Ele é muito mais. E, quanto ao resgate da sua obra de um eco demasiado parcial, talvez Teresa Martins Marques seja quem melhor o fez, com a tese de doutoramento Clave de Sol – Chave de Sombra: Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira, recolocando-o numa latitude crítica mais justa.

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