domingo, janeiro 25

Quem tem medo de (celebrar) Virginia Woolf?

Falando do romance moderno e não admitindo o fim do género, queixava-se da falta de uma obra-prima” Como ela, houve quem tentasse: “A indecência de Mr. Joyce em Ulysses parece-me ser a indecência consciente e calculada de um homem desesperado, que sente que, para respirar, tem de partir as janelas.”

Nos romances, como nas cartas, e até nos exemplos que convocava quando escrevia ensaios, tinha como grande referência Montaigne, “o primeiro dos autores modernos”, criador de uma das maiores invenções literárias: o ensaio pessoal. Mas, para Virginia Woolf (Adeline Virginia Stephen, 25 de janeiro de 1882 — 28 de março de 1941), o essencial era o escritor estabelecer contacto com o leitor, colocando diante dos seus olhos algo que este reconheça e que, por isso mesmo, lhe “estimule a imaginação e a predisposição para cooperar na fase muito mais difícil da passagem para a intimidade”.

“Arnold Bennett diz que o horror do casamento reside na sua “quotidianidade”. Toda a acuidade da relação é desgastada por ela. A verdade é mais esta. A vida — digamos, 4 dias em cada 7 — torna-se automática mas, ao 5.° dia, forma-se uma gota de sensação (entre marido e mulher) que é mais cheia e mais sensível por causa dos dias automáticos, rotineiros e inconscientes de ambos os lados. O que quer dizer que o ano é marcado por momentos de grande intensidade. Os “momentos de visão” de Hardy. Como pode uma relação perdurar, seja o tempo que for, a não ser nestas condições?”

VIRGINIA WOOLF, Diários, Relógio D'Água, 2018, p. 302.

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Álbum de fotos da aniversariante do dia Virginia Woolf,
digitalizado e colocado “online” no “site” da Houghton Library, da Universidade de Harvard.
Pode folheá-lo aqui.

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