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O filme abre com ests palavras de Vertov, a vermelho: um aviso e um desafio. Sem intertítulos, sem história, sem actores, pretende afastar-se ao máximo da literatura e do teatro, para criar uma linguagem própria — a kino-pravda — capaz de captar a realidade tal como ela é e de se distanciar, tanto quanto possível, do cinema tradicional, aquilo a que chama “dramas psicológicos”: montes de clichés, cópias de cópias que interferem, segundo o realizador, na relação operário-máquina. Vertov queria um cinema com ritmo próprio, específico, que não se encontrasse em mais lado nenhum.
Logo após este manifesto, o filme arranca com duas sequências reveladoras, marcadas pela autorreferência ao operador e ao próprio dispositivo cinematográfico. Numa delas, vemos Mikhail Kaufman sobreposto a uma câmara, como se estivesse à beira de uma ravina, a observar a paisagem. Na outra, entramos numa sala de cinema e assistimos aos preparativos para o início de uma sessão em que é exibido, nada mais, nada menos, do que O Homem da Câmara de Filmar.
A partir daqui, mergulhamos numa “viagem” de planos: imagens da cidade alternam com pormenores de montras e máquinas, gestos do quotidiano (alguém varre, alguém veste-se), o movimento das ruas e dos veículos da época. E, pela primeira vez, surge um motivo que se tornará recorrente: o plano da lente e a célebre sobreposição desta com um olho. Ao assumir a câmara como instrumento intermédio entre o espectador e o real — e não como simples representação —, Dziga Vertov insiste no acto de filmar e no processo de montagem: ora quando vemos Kaufman em múltiplos planos, ora quando observamos Elizabeta Svilova a trabalhar na edição.
A partir das teorias do “cine-olho” e da recusa do estúdio, Vertov filma a realidade como a vê: varia escalas e ritmos (close-ups, montagem alternada, câmara lenta), coloca a câmara em motociclos e locomotivas, compõe sequências por vezes caóticas que negam as convenções narrativas. A ficção é tratada como aquilo que é: uma construção imaginária, um artifício. Daí a rejeição radical do argumento, dos actores, do palco e da teatralidade do estúdio. A matéria-prima do cinema é o mundo — e é aqui que, com uma clareza quase insolente, se tenta fundar uma linguagem cinematográfica autónoma, liberta da encenação.
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