Conta a lenda que houve um ou dois leitores a quem rebentaram os vasos sanguíneos de tanto rir e cujos amigos lamentaram a sua sorte quando o médico os proibiu de prosseguir a leitura de Pickwick.
Conta-se também — e isto já não deve ser lenda — que Fernando Pessoa lamentava já ter lido este livro por não poder voltar a lê-lo pela primeira vez, e que Chesterton terá dito: “Dickens não escreveu exatamente literatura; escreveu mitologia”.
Seja como for, a verdade que posso garantir é esta: celebra-se hoje o 214.º aniversário de Charles Dickens e, já que temos unanimidade que chegue, celebremos também aquele que pode ser o pior parágrafo inicial de que há memória na melhor literatura mundial — sem menosprezar as restantes 934 páginas de elevada categoria que surgiram logo a seguir, bem entendido. Respiremos fundo...
“O primeiro raio de luz que ilumina as trevas, convertendo num brilho ofuscante a obscuridade a que parecia votada a história remota da carreira pública do imortal Pickwick, deriva da consulta do seguinte assento do Livro de Actas do Clube Pickwick, cuja exposição aos olhos do leitor é do maior agrado do editor destes documentos, enquanto testemunho da cuidada atenção, da infatigável diligência e do criterioso discernimento com que conduziu a sua investigação por entre os variadíssimos papéis que lhe foram confiados.”
(Charles Dickens, Os Cadernos de Pickwick, tradução: Margarida Vale de Gato; ilustração: Robert Seymour; edição: Tinta da China, março de 2012, p. 33.)

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