Zetho Cunha Gonçalves conta-nos uma bela história na 2.ª edição da obra poética Uma faca nos dentes, organizada para a Parceria A.M. Pereira, em 2003, com prefácio de Herberto Helder, e reproduz um belo texto do aniversariante, publicado no número do Jornal de Letras dedicado a exactamente a Herberto Helder que, por pedido expresso deste, ficou fora do livro para que não se imaginasse que esfregavam as costas um no outro.
«ESTE É QUE É O MEU VERDADEIRO RETRATO!
Depois de ter organizado, em 2001, a turbulenta segunda edição do livro de poemas para a infância de António José Forte, Uma Rosa na Tromba de Um Elefante, com desenhos de Aldina − sua companheira desde o dia 25 de Abril de 1974, o dia da Revolução dos Cravos, até à hora da sua morte, a 15 de Dezembro de 1988 −, custou muita paciência, tempo e argumentos os mais esdrúxulos (não cabe agora aqui enumerá-los), convencer Antónia Maria Pereira, então responsável editorial da Parceria A.M. Pereira, a reeditar, também − e acrescentada de uma bela soma de inéditos −, a reunião da poesia de António José Forte, com o mesmo e magnífico título de Uma Faca nos Dentes, com que havia sido dada a público, em 1983, pela editora & etc, de Vitor Silva Tavares.A escusa de Antónia Maria Pereira escudava-se naquele já caquéctico fadinho editorial cuja veracidade jamais alguém conseguiu comprovar:
− A poesia não vende!
Até que um dia, numa daquelas tardes medonhas, batida de siberianos ventos em redemoinho − tarde chuvosa e geneticamente antipática − de finais de Outubro de 2002, consegui finalmente contornar todas as negaças ou indecisões da editora:
− E se tiver um prefácio do Herberto Helder, tu publicas?
− Ah, com prefácio do Herberto, eu publico, claro que publico!… Mas tu consegues convencê-lo a escrever o prefácio?!...
Um ou dois dias depois, no Restaurante Solar dos Galegos, onde diariamente nos encontrávamos à época, aproveitando um daqueles momentos em que não estava mais ninguém que pudesse interferir na conversa, falei ao Herberto da possibilidade de se reeditar a poesia de António José Forte. E coloquei a questão:
− Herberto, você não se importaria que o seu prefácio figurasse no livro?
− Oh Zetho, quem é que organiza a edição, é você? – pergunta-me o Herberto, levando o polegar direito ao canto dos lábios, num gesto muito seu quando a conversa tomava rumos mais assertivos.
− Sim, serei eu. Mas faço questão em discutir consigo todas as minhas opções, se você estiver de acordo, naturalmente!...
– Então, se for você a organizar a edição dos poemas do Forte, podem contar com o meu prefácio. Dêem-me aí uma semana para rever o texto e modificá-lo no que houver para mudar. – Fez uma breve pausa, e acrescentou, sem disfarçar uma certa comoção:
− O Forte, você sabe, foi um dos meus poucos Amigos cuja morte eu chorei… Foi o Forte, e foi o Carlos de Oliveira.
− E o Edmundo de Bettencourt?...
− A morte do Bettencourt foi um longo choro sem lágrimas, que me deixou, depois da morte de minha mãe, numa dupla orfandade, que dura até hoje!… Você sabe, já falámos disso várias vezes: o Bettencourt, para mim, era o pai que eu gostaria de ter tido. E eu, para ele, era o filho que ele nunca teve, e que gostaria de ter!… Porra, Zetho, você agora conseguiu comover-me!...
A conversa tomou então o sentido da memória.
A comoção deu à iminência das lágrimas o lugar e o dom do riso e da gargalhada. Rememorações que há muito não afloravam nas conversas de Herberto, levaram-no a buscar nos fundos baús de milhentas histórias vivissimamente vividas − e preservadas em estado lúcido de um permanente humor em visita −, as mais hilariantes delas, a que a razoável competência do seu ouvinte-perguntador não deixava de instigar.
No dia seguinte, passava-lhe para as mãos um molho de fotocópias com os textos inéditos em volume, que viriam a ser incorporados na edição, não obstante as devidas ressalvas deste ou daquele texto ou poema cujas fragilidades os tornavam menores e, por contingência, imediatamente excluídos.
Conhecendo como conhecia o espólio plástico de Aldina, e muito particularmente os seus magníficos e contundentes desenhos, figurados muitos deles nos mais frágeis e já bastante degradados suportes, como guardanapos e pedaços de toalhas de papel de restaurantes, decidi que, muito embora os poemas de António José Forte não necessitassem de leituras plásticas paralelas nem de ilustrações, a edição deveria ser acompanhada por uma boa soma de desenhos e fotografias de Aldina, posto ser essa uma forma de preservação dos mesmos. E essa é a razão por aquela edição ter tantos desenhos reproduzidos, cuja responsabilidade é exclusivamente minha.
Feita uma primeira selecção dos desenhos, fizeram-se fotocópias dos mesmos, bem como dos poemas e textos em prosa, a partir dos quais fui estruturando cada página e capítulo do livro.
Quando já tinha uma primeira versão do conjunto organizada, sentei-me lado a lado com Herberto, durante várias tardes, afinando pormenores, trocando este desenho por aquele, mudando a ordem ou procedendo à exclusão de um poema ou texto. E, desses textos excluídos, lembro um em particular, que o foi, não pela sua falta de qualidade literária ou estética, mas porque tem como título Herberto Helder.
− Oh Zetho, este texto do Forte sobre mim – pede-me o Herberto −, por favor, você não o ponha no livro. – E acrescenta, no seu proverbial pudor: − Como sou o autor do prefácio, não quero que pensem que eu e o Forte andámos aqui a esfregar as costas um ao outro… É um bom texto, sem qualquer dúvida, e é uma pena não entrar. Mas você compreende a minha situação…
Respeitei naturalmente a vontade e as razões invocadas pelo Herberto. E o texto − que é o belíssimo depoimento que António José Forte publicou no número do Jornal de Letras dedicado a Herberto Helder, onde descreve a sua particularíssima memória da leitura do original de O Amor em Visita − não figurou no corpo do livro.
(Seja, para proveito e exemplo de um «povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos», transcrita aqui, no seu mais rigoroso sentido da homenagem – à Amizade, e à Poesia –, essa prosa breve e fulminante, assinada pelo autor de 40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas:
HERBERTO HELDER
Uma noite, há trinta anos, num banco da Avenida da Liberdade, o Herberto Helder quis ler-me o manuscrito do Amor em Visita. Não me lembro do que lhe disse, depois de ouvido o poema, mas se guardo o episódio tão vivo na memória é porque com certeza lhe atribuo algum significado singular. E o mais provável é termos ido festejar o acontecimento com muito vinho e nenhuma literatura. Era ao tempo o nosso estilo.
Quando, pelo telefone, esse veículo dito de comunicação que eu detesto, uma voz do Jornal de Letras me pediu com urgência um pequeno depoimento sobre o Herberto Helder, confesso que senti um arrepio de pudor. Vir publicamente falar de um amigo, de um terrível amigo, que é ao mesmo tempo um grande poeta português, é para mim uma situação francamente incómoda. Mas como recusar? Porquê?
A poesia é feita contra todos – está escrito e assinado definitivamente pelo Herberto Helder. No meio de tantos poemas a favor, disto e daquilo, haver um poeta assim exemplar é que nos redime da miséria e confusão intelectuais de todos os dias, e os dias são cada vez mais compridos.
Tome-se este efémero e breve depoimento como uma homenagem à noite, onde um poeta, de nome Herberto Helder, vive fascinado.
Lisboa, 11 de Novembro de 1988»)
António José Forte retratado por Aldina, s/d Tudo isto acontecia na maior cordialidade, com várias histórias sobre um que outro poema ou texto contadas pelo Herberto, entusiasmadíssimo com aquele trabalho de edição. E encantado com os desenhos, ele que era grande Amigo e profundo admirador da obra de Aldina, a quem carinhosamente chamava de «aquela grande maluca da Aldina».
E é justamente quando lhe mostro o desenho que figurará junto a «Quase 3 Discursos Quase Veementes», a páginas 29, que Herberto como que dá um salto súbito para trás na cadeira, e diz:
− Este é que é o meu verdadeiro retrato!
Ficou um longo momento contemplando a fotocópia do seu «verdadeiro retrato», ora aproximando-o da vista, ora afastando-o a ambas as mãos.
− Zetho, você desculpe – diz-me o Herberto, puxando a si a folha −, mas eu vou-lhe roubar este desenho, apesar de ser apenas uma fotocópia…
E, um segundo depois:
− Será que aquela grande maluca da Aldina quer muita massa pelo original? Veja lá com ela, se faz favor, qual é o preço que me faz… É que este é que é mesmo o meu verdadeiro retrato!
No final dessa mesma tarde, telefonei à Aldina, dando conta do sucedido. Imediatamente me convocou para, no dia seguinte, ir a sua casa às 3 da tarde, impreterivelmente.
− Oh Zetho – diz-me a Aldina mal entro porta adentro −, eu estou tão comovida com a atitude do Herberto!... Não sou capaz de lhe vender um desenho meu… Estive a pensar melhor, e vou oferecer-lhe o desenho… Mas tu é que sabes onde é que ele está…
Fui à gaveta do armário onde eu havia arrumado, já separados, os desenhos e fotografias destinados à edição do livro, peguei no desenho, e disse:
− É este, Aldina.
Aldina tomou-o nas mãos, mirou-o bem, sorriu aquele seu belo sorriso de menina traquina que nunca deixou de ser, e, com imenso carinho, disse:
− Aquele grande sacana do Herberto tem muito bom gosto!...
Acompanhei-a à moldureira, onde a escolha da moldura, do passepartout, do vidro, a questão do tempo de entrega e ainda outros pormenores técnicos foram uma verdadeira epopeia.
Dois dias depois fui buscar o desenho emoldurado, deixando-o em casa da Aldina, conforme combinado.
Por uma qualquer razão que agora me não recordo, não assisti à cerimónia da entrega do «meu verdadeiro retrato» ao seu retratado.
Quanto à edição de Uma Faca nos Dentes, com desenhos e fotografias de Aldina e prefácio de Herberto Helder, de que sou responsável, com a inestimável cumplicidade e o mais vivo entusiasmo de Herberto, ficou pronta a 12 de Março de 2003, com uma série de problemas tipográficos − a que sou total e absolutamente alheio! −, problemas esses advindos da incompatibilidade de programas de computador entre o atelier gráfico que paginara o livro e a gráfica impressora, saindo muitos dos desenhos sem nitidez, sumidos, ou sem contraste algum, e as últimas gralhas de texto corrigidas, já em ozolide, não assumidas, entre elas, algumas – chatas, chatérrimas, como aquele incontinente, onde o certo é estar lá incontingente, por exemplo! − no prefácio de Herberto Helder.
Porém, e com todas essas imperfeições, que não são poucas, o livro fez-se, existe. E provou à saciedade, que afinal a Poesia também se vende!"
Filho das noites do Café Gelo, AJF terá sido o mais amado por Mário Cesariny que o publica logo em 1959 e o viria a incluir em todas as antologias que organiza. Herberto Helder sabendo do risco de classificar António José com mais um discípulo de Cesariny, neste prefácio, tratou de explicar o equívoco:
"A voz de Forte não é plural, não é direta ou sinuosamente derivada, não é devedora. Como toda a poesia, a verdadeira possui apenas a sua tradição (…) imemorial, dinâmica, abrindo para trás ou para a frente, única maneira de entender-se a tradição. Não se trata de modo ou moda, forma ou fórmula, acidentalidade ou incidentalidade. O teor é o da inteligência fundamental do mundo." (Nota Inútil, in Uma Faca nos Dentes, ed. Antígona 2018).
Mas pouco se sabe sobre a vida de António José Forte até à sua chegada ao Café Gelo, no Rossio, em 1957. Filho de um funcionário dos Caminhos de Ferro, nasceu na Póvoa de Santa Iria e cresceu em Vila Franca de Xira, vivendo sempre na casa da estação ferroviária. Tinha o curso da escola Técnica, mas foi verdadeiro autodidata. Foi empregado de escritório numa empresa de metalomecânica e depois foi encarregado das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que com elas percorreu o país, às vezes com boas companhias, como foi o caso da de Luiz Pacheco, que aproposito dessa viagens acabou a escreveu o famoso livro O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor.
Outro encontro importante deu-se quando foi substituir Herberto Helder no lugar da Biblioteca Itinerante de Santarém. Foi aí que conheceu Luís Oliveira, editor da Antígona que conta isto:
“Nesse tempo, bebíamos mais vinho nas tabernas da Ribeira e Almeirim do que Manuel Alegre (o melhor dos nossos poetas assim-assim, segundo Agustina Bessa-Luís) declamava mentiras mais tarde nos comícios do Estado”.Quando a obra de Forte esta totalmente esgotada, Luis Oliveira avançou com um pedido à herdeira, Gisela Forte, para fazer esta antologia que tem dois textos inéditos a mais do que a publicada em 2003. O livro de 2017 junta poesia, prosa poética, textos críticos, memórias e ensaios, as publicações dispersas em jornais regionais ou no Diário de Lisboa, as publicações na revista Pirâmide nos anos 60 ou na Grifo, nos anos 70 e até uma entrevista que deu a Ernesto Sampaio, poucos meses antes de morrer. Também o livro de poesia para a infância, Uma Rosa na tromba de Um Elefante, que AJF fez para a Afrodite, a célebre editora de Ribeiro de Mello, reeditado em 2003, pela Parceria AM Pereira e esgotado, teve em 2020 nova reedição pela Orfeu Negro.



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