Em pouco mais de 100 páginas, N. fala do seu maior amigo e do seu ex-amigo. E o que descreve não é exactamente amizade: é uma forma de proximidade que não cabe numa palavra limpa, uma “espécie de amor” sem erotismo, feita de convívio, ócio, estudo, leituras como febre — Wittgenstein, Pound, Beckett, Joyce — e noites que parecem ter sido vividas para serem lembradas com culpa. Há excesso e há método. Há raparigas, há paisagens, há frases que soam a sentença. E há, sobretudo, dois temperamentos a puxarem a mesma corda até ela rebentar: M., frenético, hedonista, pop, gastador; N., contido, melómano “clássico”, indolente, melancólico. Um maníaco e um depressivo a partilharem a mesma sala, a mesma energia, a mesma fadiga.
Depois vem a pergunta que torna tudo mais vivo — e mais suspeito. Isto é ficção ou não ficção? O narrador cola-se ao autor e o “ex-amigo” tem um rosto reconhecível por trás da letra. A suspeita cresce como uma sombra inevitável: será M. Miguel Esteves Cardoso? O texto avança por cima dessa pergunta como quem a usa e a nega ao mesmo tempo. Deixa rastos, apaga-os. Lembra-se, esquece-se. Finge falhas de memória para proteger o que quer dizer. Fica num território híbrido onde a verdade anda sempre de aspas — e a literatura, por isso mesmo, ganha mais verdade do que a confissão.
O que corrói por dentro é a desigualdade. N. chama a M. “o génio da sua geração” e guarda para si a palavra menor: talento. Isto não é apenas admiração — é uma ferida com etiqueta. A assimetria pesa, o dinheiro entra (uma agência de publicidade, como se o mundo tivesse de ser conquistado também por fora) e, com ele, chegam as fricções: paternalismo, irresponsabilidade, promessas que não se cumprem. A confiança parte-se e a queda parece uma ruptura amorosa: N. adoece, fica de cama e medicado; tenta desculpar o amigo pela “monstruosidade” do génio, mas acaba a encostar-se ao que não tem remédio — uma amizade daquela ordem não se recompõe nem se substitui.
O texto é biográfico e opaco, terno e magoado, mas sem revanchismo. E, por isso, mais cruel. Porque o ressentimento dá sempre ao leitor um lugar confortável; aqui não há esse conforto. Há um gesto à Montaigne — “porque era ele, porque era eu” — como quem aponta para o coração do enigma: certas ligações são irrepetíveis não por serem perfeitas, mas por serem únicas na mistura que fizeram de nós.
Esta reedição não devolve apenas um livro. Devolve também uma pergunta: o que aconteceu a Pedro Paixão? Houve um tempo em que foi um escritor “da moda”, com leitores, com circulação, com a facilidade suspeita da visibilidade. E houve a etiqueta — “literatura light” — palavra que o mercado inventa para domesticar o que não quer ler devagar. Mas a cultura e o impulso filosófico do autor sempre ficaram ali, como uma contradição mal resolvida.
Certo é que o seu trajecto foi escrito ao contrário: visibilidade, e depois silêncio. Não como acidente, mas como escolha. Recusar o circuito, a pose, a obrigação de estar sempre presente. E regressar, quando regressa, não para “voltar ao lugar”, mas para deslocar o lugar. E, visto assim, Espécie de Amor deixa de ser apenas a história de um ex-amigo. É uma peça da mesma ética: a recusa da massagem, a recusa do livro como anestesia, a preferência pelo confronto — pela insistência. Desvio da Memória, o ensaio de 800 páginas publicado no ano passado, parece nascer também com essa insolência: não quer ser consumido, quer ser enfrentado.


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