The Smiths acabaram de fazer 40 anos e a banda envelhece como envelhecem as grandes histórias mal resolvidas: com o talento intacto e as feridas bem abertas.
Morrissey quer vender tudo o que tem dos Smiths, até o nome, numa frase que soa a epitáfio azedo: “Estou farto e não quero ligações a quem me deseja mal”. Marr responde para matar a lenda: “Não ignorei uma oferta para reunir os Smiths. Rejeitei-a”. Entretanto, morreu Andy Rourke, o baixista. Quanto ao baterista, Mike Joyce, deixou claro que não tenciona sequer folhear as memórias de Morrissey. O livro tem 630 páginas, mas nelas os Smiths ocupam pouco mais de 75: “Não li o livro e nunca o vou ler. Como artista, não havia ninguém melhor do que Morrissey, mas, quanto ao livro, tenho uma boa ideia do que lá está. Não quero enveredar por esse caminho de vir a público com um comunicado a dizer que isto ou aquilo está errado.”
Joyce guardou as forças para dezenas de páginas sobre um processo de 1996, relativo a royalties alegadamente não pagos por Morrissey e Johnny Marr. E, para fechar o círculo da tragédia, Morrissey — que exalta a música dos Smiths como um “presente de Jesus”, cheia de “foguetes… bateria explosiva” — refere-se a Joyce como “uma pulga à procura de um cão”. A partir daqui, já não há hipótese: há memória.
É neste pano de fundo que Mike Joyce publica The Drums, depois de memórias pouco aproveitáveis dos restantes membros. Não é um livro de vinganças nem de auto-mitologia: é o relato de alguém que esteve lá e que, no fundo, continua a ser fã. O cenário é o esperado e, por isso, funciona: Manchester operária e sombria, o punk como atitude, e uma máquina criativa a acelerar. Marr surge como motor incansável; Morrissey, como voz e persona; e Rourke, com Joyce, a segurarem o chão da banda — esse trabalho invisível que mantém tudo de pé.
Há bastidores e pequenas histórias que dão carne ao mito sem o estragar. E há, também, o lado menos romântico: dinheiro, tensões, desentendimentos. Joyce não foge ao tema, mas recusa viver dele. O livro tem um mérito raro: mostra a banda por dentro sem cair no puro ressentimento, nem pedir ao leitor que escolha um lado como quem escolhe um clube.
No fim, fica uma ideia simples: o que parecia demasiado “local” acabou por ser universal, porque quando uma banda acerta, acerta por inteiro. E fica um pedido óbvio: The Drums tem de existir em português, não por nostalgia, mas por utilidade. É, talvez, a leitura mais concreta sobre como os Smiths funcionaram e sobre aquilo que os partiu. Alguém?

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