quinta-feira, janeiro 8

João César Monteiro em retrospectiva integral (e melhorada)


Começa hoje a mais ambiciosa homenagem alguma vez feita a João César Monteiro: uma retrospectiva integral, em cópias digitais restauradas, que devolve à grande tela a totalidade da obra de um dos cineastas mais singulares, livres e visionários do cinema português.

Organizada pela Cinemateca Portuguesa e pela Medeia Filmes, a mostra arranca a 8 de janeiro de 2026 e percorre várias cidades — Lisboa (Cinema Medeia Nimas), Porto (Teatro Campo Alegre), Coimbra (TAGV), Setúbal (Auditório Charlot), Figueira da Foz (CAE) e Braga (Theatro Circo) — numa viagem que é tanto cinematográfica como espiritual.

Ver Monteiro hoje é reencontrar um cinema que não se contentava em contar histórias: encenava o pensamento, fazia da palavra um corpo e do corpo um escândalo. Nos seus filmes, o quotidiano mais miserável podia iluminar-se de misticismo, e a blasfémia tornava-se uma forma de oração. A sua câmara não julgava: observava com o espanto de quem vê o mundo pela primeira vez e, no minuto seguinte, o destrói para o reinventar. Já não se faz disto.

Do lirismo anárquico de Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço ao riso sacrílego de Recordações da Casa Amarela, passando por A Comédia de Deus, As Bodas de Deus e Branca de Neve, o percurso de César Monteiro é o de um cineasta que recusou a obediência estética, moral ou institucional. Fez um cinema que tanto ofendia como iluminava.

Devolver Monteiro à grande tela é um grande gesto de restituição: é aí que o seu cinema pertence — feito de silêncio, música, erotismo, abjeção e luz. E de uma pergunta permanente: o que fica quando tudo o resto se apaga?

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