A morte de Béla Tarr, a 6 de janeiro de 2026, fecha — com uma ironia cruel — um tempo em que o cinema ainda se permitia ser exigente, incómodo e, sobretudo, paciente.
Por cá, começam a aparecer cidades portuguesas sem uma única sala de cinema, como se a exibição fosse um luxo dispensável. Do outro lado, a indústria continua a andar na direção contrária: menos lugar, menos risco, menos silêncio, mais pressa. No meio desta aceleração, há um arquiteto invisível a trabalhar com eficiência absoluta: o tempo. É ele que vai apagando, um a um, os melhores realizadores — os que fizeram do cinema uma forma de verdade e não um produto de consumo rápido.
Tarr não foi um “cineasta lento”; isso é etiqueta para quem tem preguiça de olhar. O que ele fez foi recusar a trapaça: filmou o tempo como matéria e como moral. Nos seus planos longos, a miséria não aparece para ornamentar uma tese; aparece porque existe. E o espectador não é embalado: é convocado.
O seu cinema obriga a ficar. Obriga a ver. E, num mundo que se treinou para saltar, isso é quase um ato de desobediência. Do realismo social inicial à hipnose de Sátántangó e As Harmonias de Werckmeister, Tarr foi construindo uma ideia rara de cinema: uma arte que não pede desculpa por ser difícil, nem finge que o desespero é estética.
Foi isso que descobri em 2011 com O Cavalo de Turim, essa visão de chegar ao osso — e, por isso, ao fim. Há filmes que contam uma história; este impõe uma condição. Repetição, vento, trabalho mínimo, comida mínima, palavras a menos: a vida reduzida ao essencial, até o essencial começar a falhar. Tudo ali é teimosia e desgaste, como se o mundo estivesse a desligar devagar e alguém insistisse em cumprir rituais só para adiar o apagão. É por isso que O Cavalo de Turim fica tanto tempo dentro de quem o viu: não é “sobre” a miséria, é a experiência da erosão. Aquele preto-e-branco não serve para embelezar — serve para retirar distrações. E a sensação de clausura não é truque: é diagnóstico. O filme não pede simpatia; exige resistência. E, paradoxalmente, é nessa dureza que se encontra uma espécie de honestidade rara: a de não prometer saída onde não há saída. Ficou muito tempo dentro de mim.
Depois, Tarr afastou-se das longas-metragens e escolheu ensinar, como quem passa a tocha sem domesticar o fogo (preferia o termo “libertar”).
Tenho dúvidas, mas quero crer que a sua morte não encerra uma influência; expõe, antes, a urgência dela. Porque, quando até as salas desaparecem de cidades inteiras e quando os grandes autores começam a sair das páginas da atualidade, o que fica em risco não é apenas um nome ou uma filmografia: é a própria ideia de cinema como lugar — um lugar físico, sim, mas também um lugar mental — onde ainda se pode parar e suportar o mundo sem filtros e sem atalhos. Tarr lembrava-nos disso.
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