Há um equívoco típico dos bicentenários: confundir a data com o autor, como se a efeméride bastasse para o justificar. Em Camilo, isso é quase ofensivo. Ele não foi escrito para repousar num museu, com pó e reverência. Camilo foi feito para incomodar. E, se hoje já não incomoda, o problema é nosso.
O bicentenário serve para lembrar uma evidência: há autores que não envelhecem porque não escreveram para a moda do seu tempo, mas para os vícios permanentes de uma sociedade. Camilo não se limitou a narrar Portugal; radiografou-o. Deixou-nos um manual de desmontagem das carreiras respeitáveis, do discurso moralista e da virtude de fachada. Regressar a Camilo é regressar a uma linguagem que não pede licença nem desculpa. Num tempo em que o texto se antecipa a pedir perdão, Camilo corta. A sátira nele não é pose: é método. A ironia não é ornamento: é bisturi. O humor não é intervalo: é agressão inteligente. E é por isso que a sua atualidade é quase escandalosa.
Camilo não escreve sobre “o século XIX”; escreve sobre a facilidade com que a virtude se rende quando descobre as vantagens da rendição. Sobre o provincianismo que chega ao centro e aprende depressa a arte de se adaptar. Sobre a moral como capital social: exibe-se quando convém, troca-se quando atrapalha.
Uma porta de entrada? A sociedade como teatro de A Queda dum Anjo. É um romance feroz e com riso incluído. Camilo testa ali uma ideia brutal: a degradação pode ser discreta, confortável, quase elegante. Não precisa de escândalo; basta um ambiente novo, aplausos certos, vaidade alimentada e conveniências aceites como “pragmatismo”. A queda não é um momento: é um processo. E isso não é lição histórica — é descrição do presente.
É por isso que chamo a atenção (e agradeço tanto) à Relógio d’Água aquilo que a Imprensa Nacional não fez e era, sem dúvida, quem o devia ter feito: republicá-lo, com pequenos (grandes) prefácios, pôr Camilo de novo no circuito, tirá-lo do museu. Portugal tem a mania suicida de transformar autores em monumentos, e monumentos não se leem, quando muito contornam-se. Camilo precisa de voltar à mesa, ao confronto, ao uso. Não para ser “atualizado”, mas para nos atualizar a nós, pela via do riso e da vergonha. Se houver um gesto útil num bicentenário, é este: abrir Camilo sem cerimónia para quem entrar, deixar de dizer que Camilo era “de outro tempo”. Camilo é deste. Infelizmente, é.
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