A genialidade de Umberto Eco (Alexandria, 5 de janeiro de 1932 — Milão, 19 de fevereiro de 2016), está na rara capacidade de juntar erudição e narrativa sem as pôr a competir. A sua obra cruza investigação intelectual e invenção romanesca, tratando a cultura como um campo de forças: o sentido nasce, circula, é disputado e, muitas vezes, vigiado. Em O Nome da Rosa, a intriga policial serve para pensar a censura, o poder e a posse do conhecimento. Em O Pêndulo de Foucault, Eco desmonta a tentação de ver sinais em todo o lado e antecipa a febre conspirativa que transforma coincidências em sistema e crenças em dogma.
E, no entanto, a crítica também é justa. O mesmo brilho pode pesar. A erudição nem sempre entra como ferramenta; por vezes, entra como massa. Há momentos em que deixa de ser motor e passa a ser carga: ou se traz o contexto (história, teologia, latim, referências) ou fica-se à porta. O leitor perde, muitas vezes, a mão ao fio e vê-se a cumprir horas maçadoras num corredor de alusões, como quem atravessa um labirinto com demasiadas portas e pouca respiração. Nesses trechos, a exibição de repertório sobrepõe-se à fluidez e ao impacto emocional. O resultado é uma obra brilhante, sim, mas nem sempre generosa: ilumina — e, por vezes, ofusca.
E, já que falamos disso, na Universidade de Bolonha nasceu a biblioteca dedicada a Umberto Eco, que alberga os 30 000 livros que possuía. Aqui, podemos vê-la como era enquanto ele lá esteve — e entrar nela.
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