Vasco Graça Moura, que ontem, como se alguém notasse, teria feito 84 anos, faz-me muita falta. Posso ir por partes, mas não percam o todo. Como tradutor, empenhou-se em enriquecer o património literário disponível em língua portuguesa; como responsável da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM), que dirigiu ao longo de toda a década de 1980, bateu-se contra o progressivo esquecimento dos grandes autores portugueses do passado.
A ironia é que a própria INCM ainda não lhe retribuiu os favores. Continua sem “arranjar tempo” para publicar uma colecção cuidada dos seus textos avulsos saídos em jornais e revistas, nem para promover uma reedição especial, com prefácios à altura de um trabalho não só poético, mas também de prosa notável e de outras dimensões — a ficção, o ensaísmo, nada negligenciáveis.
Se títulos como Luís de Camões, Alguns Desafios (1980), Camões e a Divina Proporção (1985) ou Os Penhascos e a Serpente (1987) lhe garantem um lugar de indiscutível relevo entre os camonistas contemporâneos, os seus ensaios abarcam temas tão variados como os Descobrimentos, a pintura portuguesa da Renascença, a construção da identidade cultural europeia, o fado, a obra de José Rodrigues ou Graça Morais, a literatura de David Mourão-Ferreira ou Vitorino Nemésio — para citar uma amostra mínima.
A isto soma-se o Acordo Ortográfico que considerava um crime de lesa-língua e ao qual dedicou, em 2008, o ensaio Acordo Ortográfico: a Perspectiva do Desastre. Tentar travar a sua aplicação tornou-se o grande combate cívico dos seus últimos anos.
Talvez ainda sobre algum tempo aos actuais responsáveis da INCM — quando acabarem de encerar a obra completa de Mário Soares — para se lembrarem de duas coisas simples: que existe um prémio com o nome de Vasco Graça Moura e que respeitá-lo não devia ser opcional. Desde logo porque é um absurdo que um prémio com o seu nome exija “total respeito” pelo Acordo Ortográfico que ele tanto combateu. Ele não defendia a “antiga ortografia” por teimosia: opunha-se ao “Acordo” por o ver como uma decisão sobretudo política e económica, sem verdadeiro fundamento cultural, imposta aos falantes sob a promessa de uma “ortografia unificada” que garantiria a “expansão da língua” e o “prestígio internacional”. Acreditava que a expansão da língua se faz com política de língua — e Portugal tem feito o inverso: fecha leitorados no estrangeiro, impõe nas escolas uma terminologia linguística abominável, publica um lamentável Dicionário da Academia, expulsa Camilo dos currículos e substitui-o por diálogos de novelas. E, com tudo isto, mantém-se um prémio com o seu nome a premiar obras escritas segundo o novo Acordo Ortográfico...
Mas pronto, passou mais um aniversário silencioso de Vasco Graça Moura.
Poupem-nos às minudências.
Mesmo que nos fiquemos pela sua obra literária em sentido lato, talvez fosse preciso recuar a Jorge de Sena para encontrarmos um antecessor convincente na diversidade, qualidade e intensidade do seu trabalho criativo e intelectual. Eu também acho; mas quem o escreveu foi o Luís Miguel Queirós. (Duvido que, agora, discordem — ainda que sejam da “Academia”).
Vasco Graça Moura, que não era “nem muito ás, nem muito tolo / e nunca espelho de virtudes”, foi um editor magnífico e generoso e um talento cultural de múltiplas facetas. Em matéria poética, nomeou os seus antecessores (Camões, Bernardim, Cesário, Sena, “alguns ingleses”) e sublinhou que sempre lhe interessou dialogar com a música e com a pintura, definindo a tradução como mecanismo expansivo: “no que escrevi me traduzi / e traduzi outros também / e traduzindo me escrevi / e a escrever-me fui em quem // das várias coisas que senti / fez sofrimento de ninguém”.
Assumido burguês, ateu e “incorreto” em política, escreveu a Balada do Bom Cavaquista, destinada a desagradar mais à esquerda do que a agradar à direita (surpresa?).
Em Nota sobre um Autor, desenhou-se pela célebre definição aplicada por Diogo de Sousa a Sá de Miranda: “poeta até ao umbigo, os baixos prosa”. Sem pose nem ansiedade de posteridade, escreveu, traduziu, defendeu causas e escritores e ainda teve tempo para reconstruir a Imprensa Nacional.
Mas continua a pressentir-se no ar esse silêncio repetido — e o preconceito — com que alguns o tentaram atingir, para desonra de quem o praticou. Não se preocupem: ele não ligaria nada a isso.
Deixou, antes, em testamento, um desafio:
«às editoras (…)
deixo um bom saldo a fazer,
mal fiquem meus livros no armazém:
quem me chamava
cerebral faça o favor de me ler bem».
Tal como vos enganou na célebre Balada, também se divertiu à brava a vender a ideia de que a sua poesia devia tudo ao trabalho. A técnica, nele, nunca foi mero ornamento: foi instrumento. E, apesar de toda a engenharia, era — acima de tudo — um poeta profundamente inspirado. O ensaísta Eduardo Lourenço, organizador de uma homenagem na Gulbenkian, inscreveu o “homem de acção”, o “amigo” e “humanista” que sempre se quis ver implicado na vida do seu país: “O mundo de Vasco é o mundo todo com o seu mistério e o seu enigma insondáveis. É um teatro-mundo de configuração barroca e iluminista em que o autor, consciente de que vivemos no Ocidente uma espécie de noite de Deus, continua a ser um europeísta convicto", daqueles que nunca leram Portugal numa perspectiva complexada em relação à Europa.
Faz-me muito falta.

Sem comentários:
Enviar um comentário