sábado, janeiro 3

Um disco, um livro, um filme, uma série. Um ano.


Los Thuthanaka
Los Thuthanaka
Ed. de autor, abril, 2025 (CD)

Raramente a chamada “música de dança” rompe o molde, larga os clichés e os troca por sons vindos de outros mundos. Na estreia em duo, os irmãos Chuquimamami-Condori e Joshua Chuquimia Crampton cruzam grooves andinos da herança aymara — huayño, caporales, kullawada — com guitarras metal, sintetizadores luminosos e rádio saturado. O resultado é um trance-drone-noise, uma etiqueta útil para descrever música que combina três ideias: Trance: repetição hipnótica e pulsação constante; Drone: sons longos e sustentados, com poucas mudanças harmónicas e foco na textura. Noise: ruído e distorção deliberados — saturação, aspereza — mais energia e fricção do que melodia. É música minimal e repetitiva, densa e contínua, com grão, tensão e distorção; mais para nos agarrar pelo corpo e pela cabeça do que para se “cantarolar”. Desalinhada e hipnótica, empurra-nos para frequências que nem sabíamos que existiam.


A SERENÍSSIMA REPÚBLICA – CONTOS COMPLETOS 
Machado de Assis 
E-Primatur, março de 2025

Os últimos romances de Machado de Assis erguem-se como colossos da ficção em língua portuguesa, mas a sua escrita breve não lhes fica atrás. Neste segundo volume organizado por Amândio Reis, o trabalho filológico — paciente, linha a linha, entre imprensa e livro — devolve-nos um Machado ainda mais nítido: precisão de bisturi, malícia sem alarde, uma inteligência que não precisa de levantar a voz para ferir. São contos — muitas vezes contos-crónica — onde desfilam “casos” de ambição e de ilusão, pequenas tragédias domésticas e farsas de salão, sempre com a mesma música de fundo: a vaidade humana, esse motor incansável. Machado conta como quem sorri sem ceder um milímetro. É um pessimista irónico e céptico, mas não por pose: é porque conhece o coração e gosta de o pôr à prova, com elegância e veneno. A importância editorial deste projecto não é menor: trata-se da primeira edição portuguesa a reunir, de forma sistemática, a obra daquele que, sem exagero, pode ser tomado como o maior contista da língua portuguesa. Este é o segundo de quatro volumes, cada um dedicado a um período da sua escrita e disposto numa ordem cronológica invertida — começamos no cimo, no ponto de maturidade, para depois recuar até às raízes e às fontes de inspiração. É uma opção feliz: permite perceber, primeiro, a máquina perfeita e, depois, a sua construção. Machado escreve a partir do Brasil do seu tempo, mas não fica preso à circunstância: mostra como qualquer tema, por mais pequeno, serve para expor o Homem, o seu Tempo e as engrenagens — morais, económicas, sociais — que o moldam. E talvez por isso o paradoxo seja tão irritante: apesar do reconhecimento no espaço lusófono e fora dele, os contos de Machado continuam, em Portugal, mais celebrados do que lidos. Os restantes volumes desta colecção serão publicados ao ritmo de um por ano. Talvez seja o compasso certo para o nosso tempo: faltam leitores e abundam escritores de produção a metro e de pouca disponibilidade para aprender com quem já resolveu o essencial. Um volume por ano dá, ao menos, tempo para o exercício que quase ninguém quer fazer: calar, ler Machado e perceber que estilo não é pose — é trabalho, visão e crueldade exacta.


TARDES DE SOLIDÃO 
De Albert Serra 

O raro mérito deste documentário de Albert Serra está em fazer o que o cinema já quase desaprendeu: calar-se. Recusa dizer-nos o que pensar perante o espectáculo brutal que filma — as touradas em que um matador peruano mata, um após outro, os touros na arena. Ao nível do solo e em planos cerrados que quase apagam o contexto, vemos “figuras sós”: corpo, respiração, carne, rito reduzido a mecânica. E fica a relação desigual — um homem que olha de cima para baixo, um animal que só conhece o que tem à frente. A câmara não julga; insiste. E nessa insistência há um desconforto que o cinema, hoje, raramente tem coragem de sustentar.




THE WHITE LOTUS 
De Mike White HBO Max (Temporada 3) 

Num luxo tailandês polido até ao brilho, The White Lotus volta a servir o seu veneno com luvas de seda: a mesma toada de mistério, a mesma promessa de que, por trás do spa e das palmeiras, há sempre qualquer coisa a apodrecer. Com Jason Isaacs, Parker Posey e Walton Goggins à cabeça, a série deixa-nos, outra vez, espreitar a fauna dos ricos em modo férias: vidas surreais, desejos pequenos, dramas enormes, tudo embalado numa paisagem paradisíaca que funciona como espelho. E armadilha.

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