Vida, e vida presa, e apenas por um fio, é coisa que toda a gente tem. Embora nem toda a gente saiba que tem, ou dê por isso. Nem toda a gente está cá para o efeito. Dar por isso não deixa de ser, não obstante, a melhor das razões para cá se estar. E não há assim tantas.
(Um Fio Que Te Prende à Vida, p. 5)
Foi disso que sempre tratou Rui Caeiro (Vila Viçosa, 27 de junho de 1943 – Oeiras, 29 de janeiro de 2019): dessa consciência aguda da transitoriedade e da precariedade — de que a vida se tem, mas por um fio.
Na sua escrita, «não poetiza os lugares, nem congela o poema numa cartografia estreita. Os espaços têm, pelo contrário, o dom da necessidade, como se emanassem de qualquer destino que os implicasse, como uma artéria no corpo, na constituição da própria escrita» (Hugo Pinto Santos). O poeta «não só não tinha como desprezava os enlevos por "beldades mortas e pianos tuberculosos". Mas apreciava as "eternas dúvidas", essas inquietações que lançam um pano sobre o espírito, lhe denunciam as formas, e nos tornam sujeitos em comum, implorando do caos a clemência de um sentido qualquer, por mais mísero que seja» (Diogo Vaz Pinto). A melhor síntese talvez seja a de José Ángel Cilleruelo: (José Ángel Cilleruelo).
Em trinta anos de publicação, fez da discrição e da sobriedade uma prática literária: a maior parte da obra saiu em edições de autor ou em editoras independentes. Tradutor e poeta, estreou-se tardiamente (Deus, sobre o magno problema da existência de Deus, 1988). Nunca teve prémios. «Alguns há para quem as despedidas podem ser ao mesmo tempo banais, sem história e difíceis ainda assim», anotou em Acabamentos de primeira (Edições Eclusa).
No derradeiro livro, um duplo — Diálogos Marados / Um Maluco Vem Pousar-me na Mão (Livraria Snob) —, deixou-nos um "best-of" de coisas ouvidas, de anedotas: uma espécie de balanço.

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