
Luigi Pirandello, "Informazioni sul mio involontario soggiorno sulla terra, Saggi, poesie, scritti varii", pp. 1105-1106, in Luigi Pirandello e a recepção da sua obra em Portugal.Não gosto de falar nas costas de ninguém e por isso, agora que prevejo próxima a minha partida, vou dizer a todos, cara a cara, as informações que darei se noutro lugar me pedirem notícias acerca desta minha involuntária estadia à face da Terra, onde numa noite de junho caí como um pirilampo, debaixo de um grande pinheiro solitário, num campo de oliveiras sarracenas à borda de um planalto de argila azul, debruçado sobre o mar africano.
Sabe-se como são os pirilampos. A noite, a sua escuridão, parece feita para eles, que, voando não se sabe por onde, ora aqui, ora acolá, abrem por um momento aquele seu lânguido jorro de luz verde. De vez em quando, um cai, e vê-se e não se vê aquele seu verde suspiro de luz na terra, que parece perdidamente longe. Assim caí eu, naquela noite de junho, quando tantos outros pirilampos amarelos entreluziam numa colina onde havia uma cidade que, naquele ano, sofria de uma grande mortandade. Com o susto que apanhou por causa dessa calamidade, minha mãe trouxe-me ao mundo antes do tempo previsto, naquela aldeia solitária e longínqua onde se tinha refugiado. Um dos meus tios andava por aqueles campos, de lanterna na mão, à procura de uma mulher que ajudasse minha mãe a pôr-me no mundo; mas minha mãe já se tinha ajudado por si própria, e eu nasci antes de o meu tio regressar com a mulher. Trazido do campo, o meu nascimento foi registado na pequena cidade situada na colina. Entre as tantas pessoas que naquele ano diariamente morriam, alguém que nascia era como uma reaparição, à qual se dava tanta mais importância quanto mais insignificante e mesquinha era. Penso, porém, que para os outros era coisa certa que eu devia nascer ali e não noutro sítio, e que não podia nascer nem antes nem depois; mas confesso que acerca de todas estas coisas não tenho uma ideia precisa, nem tampouco espero vir a tê-la.
Minha mãe, que entre vivos e mortos, meninos e meninas, deu ao mundo nove filhos, nem ela teve nunca a certeza de que, para além da longa pena de os trazer dentro de si e das dores do parto, neles tivesse posto algo mais para lhes dar vida. Sabia bem que a vida — quem a dá e como a dá no habitual ato de procriação — é um mistério impenetrável, ao qual ficou alheia, apesar de nele ter participado cegamente. Amou sempre as suas criaturas, mesmo quando, sem o poder sentir, compreendeu que já não lhe pertenciam, e ficou como uma dessas criaturas, também ela uma criança, mas que perdeu algo para sempre e guardou a dor de apenas pertencer a si própria. Porque cada um, a certo ponto, sai do mistério do seu nascimento natural — que ainda dura algum tempo depois de se nascer — e, perante a incerteza de tudo, começa a nascer sozinho, para si próprio, e a formar, conforme pode, a própria vida, só: daquela solidão se tem uma terrível consciência quando se está prestes a morrer.
Ora, eu não direi nada acerca da minha vida, que, tal como a de qualquer outro, não tem nenhuma importância, pelo menos do ponto de vista a partir do qual a quis olhar. De resto, já nem a vejo. Existe, enfim, com toda a terra, como se não fosse nada. Será esta a razão pela qual não poderei dar qualquer informação acerca dela. Mal me liberte de toda a ilusão dos sentidos, serei como aquele imprevisto salpico no qual se extingue uma bola de sabão. Luz e cor, movimento. Tudo será como nada. E silêncio.
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