segunda-feira, junho 29

Giocomo Leopardi (em pensamento)

Giacomo Leopardi, rapaz do século XVIII, estaria hoje de parabéns (29.06.1798–14.06.1837). A sua biblioteca de 25.000 volumes é, por si só, recomendação absoluta — e consolo existencial para quem possui apenas 1% disso, boa parte ainda por ler e outra por reler como deve ser.

Mais difícil é imitar-lhe o alívio existencial: olhar pela janela e separar o mundo exterior — a realidade — do mundo interior — o fingimento.

Poucos o conseguiram tão bem. Pessoa, certamente. E, com ele, Maria José e o Barão de Teive — cada um à sua janela, cada um entregue às suas próprias dores, como Bernardo Soares à da Rua dos Douradores.


Giocomo Leopardi, Pensamentos, ed. Saguão, 2018

É precisamente esse gesto que Pessoa retoma na Carta da corcunda para um serralheiro (Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, org. de Teresa Rita Lopes, Estampa, Lisboa, 1990, p. 257). Maria José, a personalidade literária que Pessoa cria como autora da carta, recupera a imagem do homem corcunda, tuberculoso, que passa a vida a ler e a olhar à janela. Tal como ele, também ela se apaixona por alguém que nunca chegou a conhecer e que só viu trabalhar através dos vidros. Na carta, porém, o nome de Leopardi nunca é diretamente citado — surge apenas em alguns fragmentos críticos (Fernando Pessoa, Barão de Teive, A Educação do Estóico, org. de Richard Zenith, Assírio & Alvim, Lisboa, 1999, pp. 65-74).

Quem explica isto muito bem, e as suas consequências, é Paolo Russo, no Pessoa e Leopardi, duas almas à janela, in Mealibra, n°19, Viana do Castelo 2006, pp. 13 – 18:
"Pessoa atribui a Leopardi e aos outros dois poetas a atitude romântica de serem incapazes de conceber a realidade como algo situado fora deles próprios, atribuindo essa atitude, no caso de Leopardi, à falta de relacionamento com o sexo oposto. Leopardi aparece pela última vez num poema que lhe é inteiramente dedicado: Canto a Leopardi (Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa vol. I, org. de António Quadros, Lello & Irmão, Porto 1984, p. 406. Mas além da ironia e dos aspectos biográficos, a presença leopardiana em Pessoa é bem sintetizada no semi-heterónimo Barão de Teive que, tal como Bernardo Soares, encara muitas facetas do próprio Pessoa. O Barão encara os aspectos mais intelectuais de Leopardi, mais especificamente retoma a atitude estóica que o poeta italiano adopta nos últimos anos da sua vida. O fidalgo criado por Pessoa pertence à aristocracia, tal como Leopardi (que era conde), e tal como ele encara a nobreza como um elemento de distinção em relação ao homem comum, que o Barão observa pela janela e que desperta nele pensamentos mais altos, recalcando a estrutura da maior parte dos Canti de Leopardi. O alívio existencial de olhar à janela, enfatizado em Maria José e no Barão, é uma constante de toda a obra de Pessoa: desde a janela em Rua dos Douradores de Bernardo Soares àquela dos poemas de Álvaro de Campos; tal como em Leopardi, a janela é o elemento de separação/ligação com o mundo exterior e o mundo interior, confim entre realidade e fingimento, instrumento necessário à poesia."
Leopardi foi uma das vozes desse desassossego que o Romantismo legou e Pessoa modernizou — com a diferença de que o nosso poeta preferiu criar "outros" que sofressem no seu lugar.



"Imprimi-se muito e nada se lê" é um dos pensamentos de Giacomo Leopardi mais actuais...
“A sabedoria económica deste século pode medir-se pelas chamadas edições compactas, em que é pouco o gasto de papel e infinito o da vista. Embora se defenda a poupança de papel nos livros, pode alegar-se que o costume do século é imprimir-se muito e nada se ler. Desse costume faz também parte o abandono dos caracteres redondos, utilizados comummente por toda a Europa nos séculos passados, e a sua substituição pelos caracteres longos, a que se adiciona o brilho do papel; coisas tão belas de se ver quanto nocivas para os olhos na leitura, mas bem razoáveis num tempo em que os livros são impressos para serem vistos e não para serem lidos.” 
Giacomo Leopardi, Pensamentos, edição bilingue, tradução de Andrea Ragusa e Ana Cláudia Santos, Edições do Saguão, 2018, p. 19, 500 exemplares.

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