
Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story, o filme estreado a semana passada, no Netflix, com que Martin Scorsese dá sequência à relação com Bob Dylan depois do celebrado No Direction Home é um sarilho. Mas a verdade é que título já nos devia fazer desconfiar do que vai ser contado. É Bob Dylan Story e não Bob Dylan History, logo, não é um documentário. É o registo de um momento histórico manipulado para fazer eco com a tramóia da verdade do presente. Um gozo cinematográfico da dupla Dylan-Scorsese que nos quer fazer acreditar num circo dentro de um circo que foi a digressão de sete semanas, de 1975, de Bob Dylan and The Band, uma trupe imensa de músicos e outros artistas a percorreram os Estados Unidos em manifesto e utopia. A escolha da dupla para contar em filme a digressão Rolling Thunder Revue e enganar-nos na maior parte do tempo é um gesto que só pretende fazê-la maior do que a sua memória. Muitos vão acreditar no que vão ver e ouvir e irão correr a contar aos amigos que o realizador Stefan van Dorp, apresentado como autor de todas as imagens captadas originalmente, é quem se vê e está de relações cortadas com Dylan de quem só se queixa, que Sharon Stone foi a um dos concertos da digressão e que "Just Like a Women" foi escrita para ela, que os Kiss foram os responsáveis pela cara pintada de branco com que Dylan surgia em palco, que um tal James Gianopoulos, promotor da digressão em tom de gangster relata o pesadelo logístico que foi montar toda a operação e que o congressista Jack Tanner existiu e teve a sorte de ver um concerto da Rolling Thunder Revue depois de o futuro presidente Jimmy Carter ter telefonado directamente ao seu grande amigo Bob Dylan para lhe desenrascar um bilhete. Bob Dylan de máscara branca no rosto diz a verdade, o(s) outro(s) não. O que isso interessa é o que este filme também pergunta. Como a digressão, no final, só restam cinzas?

Sem comentários:
Enviar um comentário