Chega o frio, as redações fecham balanços, e o calendário — esse sádico discreto — aproveita esta altura para nos lembrar que até os intocáveis acabam. Quando devia haver leveza, há necrológios; quando devia haver fecho, há perda.
Aos 91 anos, Brigitte Bardot deixa o legado raro de quem nunca tratou o cinema como destino. Saiu de cena em 1973 e trocou a luz dos projetores pela causa animal, com a mesma teimosia, a mesma ferocidade e a mesma alergia a filtros. E, no entanto, ficou.
Ficou como símbolo das transfigurações do feminino nas décadas de 1950 e 1960, desde E Deus Criou a Mulher (1956), de Roger Vadim; e como presença etérea, indecifrável, em O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard — Camille, nome que ainda hoje soa a enigma.
Mais do que o catálogo, pesa o recado. Já no fim, Alain Delon deixou uma frase simples e definitiva: «Aidez-la… c’est une femme pure» (“Ajudem-na… é uma mulher pura”). Vale mais do que mil elogios: não é idolatria do mito; é a proteção de quem a conhecia por dentro — e um desprezo magnífico pelos novos tempos, sempre prontos a confundir indignação com virtude.
A França precisa de se renovar e, sobretudo, de voltar a merecer os seus próprios símbolos.
Allez, Blues!
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Dois cartazes de Le Mépris / O Desprezo (1963): o original e, à direita, o de 2023, assinalando o 60º aniversário do filme, restaurado em 4K, a que corresponde o trailer acima. (O original está aqui).
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