sexta-feira, janeiro 2

Puxar o quotidiano até a máscara cair

O mundo nunca deixou de ser um lugar absurdo — e Mário-Henrique Leiria (Lisboa, 2 de Janeiro de 1923 — Cascais, 9 de Janeiro de 1980) sabia-o com a nitidez cruel de quem faz do quotidiano um laboratório de horror doméstico. “Quando foi o aumento do pão e do leite, deitámos fora a avó Constância. O consumo baixou um pouco e lá nos aguentamos por uns tempos. Depois foi a carne e o peixe numa subida vertiginosa. Bem, resolvemos o assunto envenenando o tio Alberto, lá isso é verdade. Mas agora, como vai ser isto — e a Ermelinda bufava, irritadíssima.” (in Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, E-Primatur, 2017, p. 513). A lógica é familiar: quando sobe o preço, corta-se “despesa” — e, no limite, cortam-se pessoas. Ri-se por reflexo; engole-se em seco logo a seguir. Porque a frase diz alto o que tantas moralidades dizem baixo: a família como contabilidade, o afecto como custo, a sobrevivência como cálculo. O absurdo, aqui, não é capricho: é retrato. Não há tragédia, não há remorso, não há solenidade. Há uma Ermelinda irritada. A violência entra como conversa de cozinha, com a naturalidade do preço do leite. Leiria não grita; expõe. Inverte a hierarquia e deixa a vida humana no lugar mais barato.

Numa carta a Mário Cesariny, em 1949, o programa já estava escrito, sem eufemismos: “Reduzo-me a tentar, aqui, destruir tudo quanto posso, desde o conceito de família destes gajinhos, até às noções idiotas de arte e literatura que eles possuem. Estou, possivelmente, a caminho de uma posição anarquista declarada” (in O Surrealismo em Portugal, Maria de Fátima Marinho, INCM, 1987). Destruir, aqui, não é pose: é método. É recusar o respeito automático pelo que manda, pelo que se herda, pelo que se repete.

Sabotagem por linguagem. Puxar o quotidiano até a máscara cair. Obrigar-nos a admitir a pergunta: que espécie de moral aceita a brutalidade com ar de normalidade? A resposta dele não consola. Entala.


Quem primeiro percebeu a força de Mário-Henrique Leiria foi Mário Viegas. Ninguém melhor para mostrar como se enfia uma teoria do mundo numa anedota de bolso, como se faz uma moral inteira caber em segundos. Quando diz “A Nêspera”, adaptada de Novos Contos do Gin (1974), não declama um “texto engraçado”; arma um mecanismo. Começa na letargia — “deitada”, “muito calada”, “a ver o que acontecia” — e, sem aviso, instala-se a inevitabilidade: entra a Velha. “Zás”. O fim é um provérbio sem piedade: quem espera, quem adia, quem fica quieto, acaba comido.

A genialidade está nessa crueldade dita em tom de lengalenga: primeiro o riso, depois o estalo. Leiria não explica, não consola, não moraliza — expõe. E Viegas percebeu o essencial: ali, o ritmo é argumento. Estica a pasmaceira, acelera o “zás” e deixa a sentença cair. Seca. 33 segundos bastam para lembrar que, em Leiria, o absurdo nunca é capricho: é retrato.

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