Para viajarmos até ao momento do nascimento de Ziggy Stardust temos de recuar uns meses. Fim de tarde de 29 de janeiro de 1972, num local relativamente discreto. Nos camarins do Borough Assembly Hall, David Bowie, encarnar a figura de Ziggy Stardust, que entrou em cena ao som de uma versão da ‘Ode à Alegria’, de Beethoven. Bowie tinha-a escutado, dias antes, na banda sonora de “A Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, filme que se estreara a 13 de janeiro. Acompanhava-o uns os Spiders From Mars (com o guitarrista Mick Ronson, o baixista Trevor Bolder e o baterista Mick Woodmansey), que deixavam transparecer algum desconforto pelas roupas que lhes tinham sido atribuídas por Bowie. Aquela noite foi como um ensaio geral para uma digressão que arrancaria formalmente a 10 de fevereiro no pub Tuby Jug, em Londres, perante uma plateia de cerca de 60 pessoas, entre os quais, Roger Taylor, que pouco depois o mundo conheceria como baterista dos Queen.
As ideias que moldaram Ziggy Stardust já tinham dado os primeiros sinais de vida uma semana antes numa entrevista em que Bowie, então casado com Angie e com um filho nascido um ano antes, afirmara ao jornalista Michael Watts, do “Melody Maker”, que era gay. Construção narrativa promocional ou não, esta afirmação identitária faria de Bowie um ícone na história da cultura queer e agitaria muitas águas. Até as da contradição. Em 1978, numa outra entrevista, afirmou ser bissexual. Um pouco mais tarde diria à “Time” que aquelas palavras, em janeiro de 1972, haviam sido um equívoco e em 1987, à revista juvenil “Smash Hits” respondeu, com uma gargalhada: “Não devem acreditar em tudo o que leem.”
O biógrafo Nicholas Pegg, autor de “The Complete David Bowie”, o mais completo guia sobre a sua obra, entende que o que músico fez na entrevista ao “Melody Maker” foi “abraçar o espírito camp segundo a sua mais verdadeira definição, que não tem a ver com sexualidade, mas com a elevação de uma estética acima do meramente prático”.
Nos Trident Studios, em Londres, a 9 de julho de 1971, a primeira canção gravada para o novo disco foi uma versão de It Ain’t Easy, de Ray Davies e a última Starman, depois de um executivo da editora RCA, pela qual Bowie assinara recentemente, se ter queixado da falta de um hit. A 6 de junho de 1972 “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars” está gravado e escolhido canções que acabaram depois em lados B e outras ficaram na gaveta.
Bowie explicou a uma rádio americana, ainda em 1972, que “Ziggy” não nascera como um álbum conceptual, mas tinha em mãos uma figura que era mais que apenas um nome. E que não era a primeira vez que criava uma personagem. Em 1969, inspirado por “2001: Odisseia no Espaço”, de Kubrick, e pelo momento que se vivia de corrida ao espaço (a Apollo 11 chegou à Lua em julho desse ano), cantara sobre um Major Tom, algures no espaço, em ‘Space Oddity’, mal imaginando ainda que a ele regressaria mais tarde em canções como ‘Ashes to Aches’ (1980), ‘Hallo Spaceboy’ (1995) e até eventualmente no teledisco de ‘Blackstar’ (2015), onde se sugere a visão de um astronauta morto (seria o mesmo?). Ziggy Stardust teve, contudo, uma génese mais longa, mais refletida e capaz de traduzir a ideia da “esponja” cultural pós-moderna em que Bowie se transformava.
Ziggy foi um acumular experiências. Moldado inicialmente pelo impacte causado pela série de TV “The Quatermass Experiment” que Bowie vira, em criança, em casa dos pais, cimentado mais tarde por leituras e filmes, foi alimentado pelas narrativas, então em voga, de avistamentos de OVNI e, muito particularmente pelo filme “O Dia em Que a Terra Parou” (1951), de Robert Wise. No grande ecrã chegava um alienígena que visitava a Terra com uma mensagem de alerta.
A poeira das estrelas pode carregar ressonâncias do seu já referido gosto pela ficção científica. Mas traduz ainda uma memória pessoal: a de ‘Stardust’, uma canção de 1927 de Hoagy Carmichael que, na versão da Ramon Roquello Orchestra, era uma das preferidas da mãe de Bowie… E se Stardust ficou como apelido, o nome próprio veio, segundo contou, da montra de uma alfaiataria onde leu: Ziggy…
As mais visíveis das muitas inspirações que levaram Bowie a chegar a Ziggy chegaram, todavia, dos mundos do teatro, do cinema e da moda. Lindsay Kemp, ator e coreógrafo, mas sobretudo conhecido como mimo, foi a mais inspiradora das forças junto de Bowie entre finais dos anos 60 e inícios dos 70, tendo-lhe inclusivamente aberto portas para diferentes trabalhos em palco numa altura em que a música ainda não lhe fazia chegar os rendimentos suficientes para o dia a dia. Foi mesmo um dos seus mentores. De outras latitudes chegaram ecos do teatro kabuki, tradição japonesa que transgride as fronteiras de género já que ali os papéis femininos são desempenhados por homens.
Do cinema acolheu a já citada presença inspiradora de “A Laranja Mecânica” tanto na música como na imagem dos droogs. O interesse pelas narrativas distópicas, que marcou também a narrativa em volta de Ziggy Stardust, ganharia pouco depois forma ainda mais evidente na cidade assombrada que Bowie imaginaria em “Diamond Dogs” (1974).
Ao teatro, à pantomina e ao cinema a construção de Ziggy deve igualmente muito a contribuições da moda, mas muito ao japonês Kansai Yamamoto, que fez do Bowie de 70 uma das mais influentes forças icónicas do seu tempo, assumindo inclusivamente este designer a criação das roupas de palco nas últimas etapas da própria Ziggy Stardust Tour. A juntar às roupas, o elemento gráfico com o raio que surgiu em palco e ficaria depois inscrito no rosto de Bowie na fotografia da capa de “Aladdin Sane” (1973) é outra peça nesta coleção de referências, provindo possivelmente de outra memória de ficção científica, protagonizada por um herói da primeira metade do século XX: Flash Gordon.
A criação de Ziggy Stardust é, mais ainda do que o Major Tom de 1969, uma manifestação de que Bowie pensava a sua música além do trabalho de composição, escrita, arranjo, interpretação, gravação, edição e performance. Criava personagens e contextos. Dava às canções mais do que discos e um palco. Dava-lhes vida.
Mas o mundo levou tempo a reagir.
Com uma vida de palco desde janeiro de 1972, a Ziggy Stardust Tour já somava perto de 40 concertos quando, a 6 de junho, finalmente o álbum “The Rise and Fall of Ziggy Stardfust and The Spiders From Mars” chegou às lojas. Energia, melodias irresistíveis, apelo andrógino na imagem, ousadia e sedução. O mundo mudava e Ziggy era uma das alavancas de uma revolução que não se limitava à música.
Tal como o nascimento, também o fim de Ziggy foi pensado e encenado. A 3 de julho de 1973, ao cabo de 191 atuações, Bowie ‘matou’ Ziggy, anunciando em pleno palco que aquele era o último concerto que ‘dariam’. O momento seria captado pelas câmaras de D. A. Pennebaker (o mesmo realizador do histórico “Don’t Look Back” sobre Dylan), das quais nasceria “Ziggy Stardust: The Motion Picture”, filme que só teria uma estreia em festival em 1979 e chegaria às salas comerciais em 1983 (acompanhado pela respetiva banda sonora, com o registo ao vivo duas noites no Hammersmith Odeon a 2 e 3 de julho de 73).
A canção que tinha por título ‘Ziggy Stardust’ terminava com Bowie a cantar… “Ziggy played guitar”. Mas, na verdade, fez muito mais do que isso.
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