quinta-feira, fevereiro 2

100 anos à procura do leitor ideal


"Ulisses", primeira edição de 1922

Ulisses, de James Joyce, foi publicado em 2 de fevereiro de 1922, há precisamente 101 anos. Apresenta-nos “o dia mais longo da literatura”, “dia invulgarmente fatigante” (p. 494). No dia 16 de Junho de 1904 Leopold Bloom, Molly Bloom (a sua mulher, prestes a reincidir no adultério) e Stephen Dedalus iniciam uma narrativa a que Joyce chamou “enciclopédia” revelada em três partes: Telemaquia, com três episódios; Odisseia, com 12; Nostos (regresso), os três finais reconfigurando o mito de Ulisses num aparente caos de estilos e técnicas. Ninguém se espanta por aparecerem sereias como empregadas de bar. É normal sentirmos na multiplicidade de estilos uma massa ilegível, mas com alguma paciência "a polifonia romanesca desmentirá a falácia de uma univocidade composicional". Em Portugal podemos comparar três traduções: a de João Palma-Ferreira, Antônio Houaiss e, a última disponível, de Jorge Vaz de Carvalho.

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”Todos sorriram os seus sorrisos.
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— São Tomás — disse Stephen, sorrindo —, cujas obras barrigudas me apraz ler no original, ao escrever sobre o incesto de um ponto de vista diferente desse da nova escola vienense de que o Sr. Magee falou, equipara-o no seu modo sábio e curioso a uma avareza das emoções. Quer ele dizer que o amor assim dado a alguém do mesmo sangue é estupidamente subtraído a algum estranho que, quiçá, tem fome dele. Os judeus, a quem os cristãos acusam de avareza, são de todas as raças a mais dada ao casamento entre parentes. As acusações são feitas por ira. As leis cristãs que edificaram a acumulação de riquezas pelos judeus (para quem, como para os lolardos, a tormenta era refúgio) ligaram as suas afeições também com aros de aço. Se estas são pecados ou virtudes, o velho Paininguém dir-nos-á no tribunal do juízo final. Mas um homem que se agarra tão firmemente àquilo que chama os seus direitos sobre aquilo a que chama as suas dívidas também se agarrará firmemente àquilo a que chama os seus direitos sobre aquela a que se chama sua mulher. Nenhum vizinho senhor sorriso cobiçará o seu boi ou a sua mulher ou o seu servo ou a sua serva ou o seu jumento.”

 (JAMES JOYCE, “Ulisses”, tradução de Jorge Vaz de Carvalho, Relógio d’Água, 2.ª ed., 2014, pp. 215-216)

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Joyce com a sua editora Sylvia Beach em Paris, anos 1920

A vida financeira de Joyce é tema de muitas cartas. O escritor era perdulário: viajava em primeira classe (enquanto Beach e Monnier iam na terceira), ficava em hotéis de luxo, frequentava bons restaurantes, dava presentes caros aos amigos, etc. Portanto, não foram raras as vezes em que o romancista escreveu a Beach pedindo-lhe mais dinheiro. Numa das cartas, a editora oferece-lhe mais do dinheiro, como era hábito:
“Tenho reflectido sobre a questão das suas finanças. Estava impossibilitada de pensar nelas claramente na sua presença por conta do feitiço lançado pelo seu génio e da morosidade da minha aritmética. Você disse que tinha apenas 9000 francos por mês para viver, e então eu lembrei-lhe que Ulisses lhe rendera 125.000 desde Agosto passado. Isso dá cerca de 12.000 francos por mês, não é, que somados aos 9000 totalizam cerca de 21.000 francos por mês. Você não considerou os direitos autorais de Ulisses importantes o bastante para mencionar. Mas teria sido mais correcto da sua parte confessar que tem vindo a gastar esse montante de dinheiro considerável do que contar-me um monte de histórias da carochinha, a mim que sou sua amiga, se algum dia você teve uma. Você é o maior escritor vivo, mas até [Ezra] Pound tem mais juízo. Ir a um agiota. Os Brandleys não podem ter uma uma noção mais falsa das suas circunstâncias do que a que você mesmo tem. Mas o que importa isso?

Com os mais sinceros cumprimentos,

Atenciosamente,

Sylvia Beach”.
(Desta carta vem o título do livro, publicado no final de 2021 pela Brill/Rodopi e organizado por Ruth Frehner e Ursula Zeller – Your Friend If Ever You Had one: The Letters of Sylvia Beach to James Joyce [Sua amiga, se algum dia você teve uma: as cartas de Sylvia Beach para James Joyce] –, ainda sem tradução para português.)

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𝐉𝐚𝐦𝐞𝐬 𝐉𝐨𝐲𝐜𝐞 𝐯𝐢𝐬𝐢𝐭𝐚 𝐚 𝐬𝐮𝐚 𝐞𝐝𝐢𝐭𝐨𝐫𝐚

— James, este livro é uma obra-prima. “Os crimes de Ulisses” vai vender milhões de cópias.
— Chama-se só “Ulisses”.
— Sim, mas tem de realçar todos os crimes.
— Crimes?
— Essa é a outra questão de que te quero falar. Gostamos todos de modernismo literário, mas o que é que vende mesmo?“Thrillers”.
— Não é um “thriller”.
— Ainda não, mas ouve-me lá.... “16 de Junho de 1904: Nas ruas sujas de Dublin, o detective Leopold Bloom joga perigosamente ao gato e ao rato com o assassino em série que matou a sua mulher.”

(Tom Gauld)

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