Um documento de 1950 parece provar que o Milan Kundera ( n. 1 de abril de 1929)
denunciou à polícia um dissidente do regime comunista da ex-Checoslováquia. A polémica motivou uma carta aberta de quatro prémios Nobel da Literatura e deu origem a atritos diplomáticos entre a França e a República Checa. O caso remonta a 1950, mas só foi ressuscitado em 2008, quando a revista checa de informação política - Respekt - fez capa da história, assinada pelo historiador Adam Hradilek. Sim ou não? Anda (ainda) meio mundo à procura de pistas nos romances de Kundera. Hradilek julga tê-las encontrado numa peça de 1964, que o escritor depois rejeitaria e cujo título, em português, seria Os Donos das Chaves. Conta Luís Miguel Queirós:
Mas há mais livros de Kundera para falar no dia do seu nascimento. A Arte do Romance é uma preciosidade para boas livrarias. Oferece muito e um novo modo de organizar: A) "romances da história do romance"; B) "romances após a história do romance". No fundo, o melhor reconhecimento que a morte do romance já aconteceu e que isso não escandaliza ninguém.
"PSEUDÓNIMO. Sonho com um mundo em que os escritores fossem obrigados por lei a manter secretas as suas identidades e a empregar pseudónimos. Três vantagens: limitação radical da grafomania; diminuição da agressividade na vida literária; desaparecimento da interpretação biográfica de uma obra."
Milan Kundera, A Arte do Romance
Para ele o romance nunca afirma nada, antes procura e coloca questões. E dá um exemplo: D. Quixote saiu para o mundo, esse mundo tornou-se num mistério diante dos seus olhos. Foi isso o que o primeiro romance europeu transmitiu a toda a história subsequente do romance. O romancista ensina o leitor a compreender o mundo como uma pergunta. Há sabedoria e tolerância nessa atitude. Num mundo construído sobre certezas sacrossantas,
o romance está morto. O mundo totalitário, seja baseado em Marx, no Islão ou em qualquer outra coisa, é um mundo de respostas em vez de perguntas. Aí, o romance não tem lugar. Em todo caso, parece-me que, em todo o mundo, as pessoas hoje preferem julgar a compreender, responder a perguntar, de modo que a voz do romance dificilmente pode sobrepor-se à estupidez ruidosa das certezas humanas.Não sou eu a dizê-lo, é Kundera.
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