Esta semana indignamo-nos muito com a violência no Bairro da Jamaica e nada com a miséria do Bairro da Jamaica. Ouvimos das partes envolvidas versões contraditórias sobre a violência e apenas o silêncio da autarquia que há 40 anos (com a mesma "cor") lidera os destinos do bairro (C.M. do Seixal). Finalmente, ouvimos um (ir)responsável político produzir um discurso repetindo velhas cartilhas, reforçando barricadas e exclusões contra a qual supostamente se manifestava, também sem nada entender. Conclusão: está tudo por fazer e dizer.
"A expressão impõe-se pela prosódia: “bosta de bófia” usa a aliteração, tem a qualidade musical dos slogans. É adequada a uma entoação colectiva, em manifestações. Mas quem hoje escreve ou grita ´bosta de bófia´ precisa também de saber, para que o seu grito seja eficaz, que tem de se debater com este problema: há provas bastante evidentes de que há uma continuada violência policial racista contra determinados grupos ou “comunidades”, mas há também o grande “mito” esquerdista, com uma longa história, da violência policial. Falando em “mito” não quero dizer que essa violência policial não exista e que não haja razões suficientes para nos mobilizarmos contra ela. Mas ganhou um significado que acabou por se sobrepor aos factos e está para além da verdade e da mentira. As palavras que servem para lutar contra a violência policial racista precisam também de ser eficazes contra o mito, precisam de transpor a espessura ideológica que em torno delas se foi criando, precisam de se subtrair ao mito. Tarefa difícil."
António Guerreiro, in Público ("Livro de recitações, “Bosta de bófia” Mamadou Ba, activista do anti-racismo").
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"Vivi em Lisboa muitos anos, sei bem como os tugas reagem ao negro, sobretudo ao mais desfavorecido, e sei bem como o negro reage a quase tudo o que não o favorece na relação com o outro: é racismo."
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José Kaliengue, in Diário de Noticias ("A Capa do Racismo").

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