Atticus Ross e Trent Reznor andam a distribuir preciosidades musicais na série Watchmen. Aqui, uma assombrosa, para dizer pouco, versão instrumental de Life on Mars, de David Bowie.
segunda-feira, dezembro 23
domingo, dezembro 22
Ele voltou... para o chefe de familia
O novo anúncio da plataforma digital Xfinity revisita E.T com Elliott, Henry Thomas, agora com 48 anos e chefe de família. Um dos melhores anúncios do ano?
quinta-feira, dezembro 19
La vie en rose
Edith Piaf (19 de Dezembro de 1915 — 10 de Outubro de 1963) canta "La vie en rose", em Março de 1954.
quarta-feira, dezembro 18
Fotografia para agitar águas
![]() |
Fernando Lemos - Carlos Wallenstein / A Fala do Gesto - 1949 |
Fernando Lemos, José Fernandes de Lemos (Lisboa, 3 de maio de 1926-17 de dezembro de 2019), foi um pintor, artista gráfico e fotógrafo luso-brasileiro. Foi também o primeiro dos nossos surrealistas a escolher a imagem fotográfica como suporte com consequência e intenção declarada de agitar as águas. A sua carreira de mais de 60 anos, dividida entre Portugal e o Brasil, tocou várias áreas. Fixou o retrato da vanguarda artística portuguesa, renovando a linguagem fotográfica de um país atrasado.
Faleceu, hoje, em São Paulo.
sábado, dezembro 14
Anna Karina (1940-2019)
Os espectadores mais jovens não a conhecem nem a reconhecem. Vivia perante a câmara, não o confessionalismo patético dos “famosos”, mas o despojamento do ser. Não vai ser fácil conquistá-los.
quinta-feira, dezembro 12
Gustave Flaubert
Gustave Flaubert (12 de Dezembro de 1821 – 8 de Maio de 1880), escritor francês, sobre os amores ao longo da vida de um homem:
.
"Há tantos amores na vida de um homem! Aos quatro anos, ama-se os cavalos, o sol, as flores, as armas que brilham, os uniformes de soldado; aos dez, ama-se a menina que brinca connosco.; aos treze, ama-se uma mulher de colo túrgido, porque me lembro de que o que os adolescentes amam loucamente é um colo de mulher, branco e mate, e como diz Marot: Tetin refaict plus blanc qu'un oeuf Tetin de satin blanc tout neuf. Quase me senti mal quando vi pela primeira vez os seios desnudados de uma mulher. Por fim, aos catorze ou quinze anos, ama-se uma jovem que vem a nossa casa, e que é um pouco mais que uma irmã, menos que uma amante; depois, aos dezasseis anos, ama-se uma outra mulher, até aos vinte e cinco; depois, talvez se ame a mulher com quem casamos. Cinco anos mais tarde, ama-se a dançarina que faz saltar o seu vestido sobre as suas coxas carnudas; por fim, aos trinta e seis, ama-se a deputação, a especulação, as honrarias; aos cinquenta, ama-se o jantar do ministro ou do presidente da câmara; aos sessenta, ama-se a prostituta que nos chama através dos vidros e a quem se lança um olhar de impotência, uma saudade do passado. Não será assim? Porque eu passei por todos esses amores; não todos, porém, porque não vivi todos os meus anos, e cada ano, na vida de muitos homens, é marcado por uma paixão nova, paixão das mulheres, do jogo, dos cavalos, das botas finas, das bengalas, das lunetas, das carruagens, da posição. Quantas loucuras há num homem! Oh! não há a menor dúvida de que os matizes de um trajo de arlequim não são mais variados do que as loucuras do espírito humano, e ambos chegam ao mesmo resultado: ficarem coçados e fazerem rir durante algum tempo, o público em troca do seu dinheiro, o filósofo em troca da sua ciência. " . in 'Memórias de um Louco' .
"Há tantos amores na vida de um homem! Aos quatro anos, ama-se os cavalos, o sol, as flores, as armas que brilham, os uniformes de soldado; aos dez, ama-se a menina que brinca connosco.; aos treze, ama-se uma mulher de colo túrgido, porque me lembro de que o que os adolescentes amam loucamente é um colo de mulher, branco e mate, e como diz Marot: Tetin refaict plus blanc qu'un oeuf Tetin de satin blanc tout neuf. Quase me senti mal quando vi pela primeira vez os seios desnudados de uma mulher. Por fim, aos catorze ou quinze anos, ama-se uma jovem que vem a nossa casa, e que é um pouco mais que uma irmã, menos que uma amante; depois, aos dezasseis anos, ama-se uma outra mulher, até aos vinte e cinco; depois, talvez se ame a mulher com quem casamos. Cinco anos mais tarde, ama-se a dançarina que faz saltar o seu vestido sobre as suas coxas carnudas; por fim, aos trinta e seis, ama-se a deputação, a especulação, as honrarias; aos cinquenta, ama-se o jantar do ministro ou do presidente da câmara; aos sessenta, ama-se a prostituta que nos chama através dos vidros e a quem se lança um olhar de impotência, uma saudade do passado. Não será assim? Porque eu passei por todos esses amores; não todos, porém, porque não vivi todos os meus anos, e cada ano, na vida de muitos homens, é marcado por uma paixão nova, paixão das mulheres, do jogo, dos cavalos, das botas finas, das bengalas, das lunetas, das carruagens, da posição. Quantas loucuras há num homem! Oh! não há a menor dúvida de que os matizes de um trajo de arlequim não são mais variados do que as loucuras do espírito humano, e ambos chegam ao mesmo resultado: ficarem coçados e fazerem rir durante algum tempo, o público em troca do seu dinheiro, o filósofo em troca da sua ciência. " . in 'Memórias de um Louco' .
terça-feira, dezembro 10
Emily Dickinson
Emilly Elizabeth Dickinson (Amherst, 10 de dezembro de 1830 - 15 de maio de 1886) foi uma poetisa americana, considerada moderna em vários aspectos da sua obra
.

Thomas Wentworth Higginson (Cambridge, Massachusetts, 22.12.1823 - 9.5.1911), pastor da Igreja Unitarista, escritor, abolicionista, soldado e defensor dos direitos das mulheres, correspondeu-se com Emily Dickinson, inspirou-a, apoiou-a e editou-a. Muitos anos antes de Rilke, Higginson escreveu na “The Atlantic Monthly” a Carta ao Jovem Colaborador, que se dirigia especialmente às muitas mulheres anónimas que enviavam, sob pseudónimos masculinos, textos para a revista.
.

Thomas Wentworth Higginson (Cambridge, Massachusetts, 22.12.1823 - 9.5.1911), pastor da Igreja Unitarista, escritor, abolicionista, soldado e defensor dos direitos das mulheres, correspondeu-se com Emily Dickinson, inspirou-a, apoiou-a e editou-a. Muitos anos antes de Rilke, Higginson escreveu na “The Atlantic Monthly” a Carta ao Jovem Colaborador, que se dirigia especialmente às muitas mulheres anónimas que enviavam, sob pseudónimos masculinos, textos para a revista.
segunda-feira, novembro 25
Eça de Queirós ( 25.11.1845 — 16.08.1900)

“Quando pela primeira vez li Eça de Queirós, já estava enfronhado em Camilo. A minha primeira reacção foi, pois, de estranheza, antipatia, desagrado. O novo grande romancista português que principiava a conhecer — parecia-me frio e distante. A bem dizer, cruel, duma crueldade sem nervo. Acostumado a conversar com o meu Camilo, debalde queria, pois não podia, apaixonar-me contra, ou a favor dos seus personagens. Por sua vez me pareciam estes inacessíveis ou fechados, — porque não dizer vazios? Todas estas dificuldades se me avolumavam por não ter eu, então, senão escassa capacidade a reconhecer as grandes virtudes com que o Eça as compensa.
Algumas vezes, ao longo da vida, o meu juízo próprio sobre o grande escritor tem variado, e a minha admiração por ele sofrido altas e baixas.”
José Régio, Apontamentos sobre Eça de Queirós
sábado, novembro 23
Todesfuge

Paul Celan (23.11.1920 — 20.4.1970), poeta romeno-francês de língua alemã, nascido numa família judia, declama o seu poema "Todesfuge" / "Fuga da morte" (tradução para português da autoria de João Barrento)
FUGA DA MORTE
Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro
[Margarete
escreve e põe-se à porta da casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para começar a dança
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro
[Margarete
Os teus cabelos de cinza Sulamith cavamos um túmulo nos ares aí
[não ficamos apertados
Ele grita cavem mais fundo no reino da terra vocês aí e vocês outros
[cantem e toquem
leva a mão ao ferro que traz à cintura balança-o azuis são os seus
[olhos
enterrem as pás mais fundo vocês aí e vocês outros continuem a
[tocar para a dança
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia e pela manhã bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith ele brinca com as serpentes
E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre
[que veio da Alemanha
grita arranquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumo
[subireis aos céus
e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre que que veio da
[Alemanha
bebemos-te ao entardecer e pela manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre que veio da Alemanha azuis são os teus olhos
atinge-te com bala de chumbo acerta-te em cheio
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
atiça contra nós os seus cães oferece-nos um túmulo nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um mestre que veio da
[Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith.
terça-feira, novembro 19
José Mário Branco (1942 - 2019)
Um bom cantor, um bom compositor, um tipo do Porto que não perde actualidade.
*
*
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda.
Nasceu no Porto em 1942 e estudou História nas Universidades de Coimbra e do Porto, curso que nunca terminaria. Filho de professores, foi militante do Partido Comunista Português (PCP) e obrigado a exilar-se em França, para onde viajou em 1963. Em Paris, conheceu Luís Cília e Sérgio Godinho (também exilados) e é junto com eles que grava, em 1967, uma maqueta que vem a dar origem ao seu primeiro disco Seis Cantigas de Amigo, editado em 1969 pelos Arquivos Sonoros Portugueses. Mas Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971), lançado em Portugal a par de uma grande entrevista que lhe fez Adelino Gomes é a sua grande marca. Mas também há Inquietação e FMI, um grito geracional vindo das entranhas, que ele justificou, mais tarde, com a “necessidade de encontrar um sentido para a vida fora dos clichés ideológicos”. O 25 de Abril fá-lo regressar a Portugal, a 30 de Abril, no mesmo avião em que viajava Álvaro Cunhal. A sua vida está bem retratada no livro O Canto da Inquietação, de Octávio Fonseca Silva (MC, 2000) e no documentário Mudar de Vida, já editado em DVD (Alambique, 2014). Agora, podemos continuar a ouvi-lo.
segunda-feira, novembro 18
Fabulista clássico-minimalista
A ideia de lhe chamar assim é do José Ángel Cilleruelo, que dizia:
“Rui Caeiro age como um fabulista clássico com um toque minimalista”.
domingo, novembro 17
Eça, Camilo, Aquilino (e a minha ruína...)
A carta "póstuma" que Eça escreveu ao Camilo há de perdurar como uma das mais belas páginas queirozianas. Mas fez bem, o Eça, em vida de ambos, não a ter enviado ou sequer exibido — é que havia de jogar boas e certeiras armas e, sobretudo, que essas não fizessem ricochete... Sobretudo sob o ponto de vista do humour é uma delícia literária. Mas também o é a explicação que sobre ela dá o mestre Aquilino...

Ex.mo Sr.
Um tardio correio trouxe-me ontem um número, já quase velho, das Novidades, com um artigo, Notas à Procissão dos Moribundos, em que V. Ex.a., resmungando e rabujando, se queixa ao público de que eu e os meus amigos implicamos consigo, sempre que isso vem a talho de fouce, e lhe assacamos aleivosias. Como exemplo deste indecoroso hábito, cita V. Ex.a. um período da minha carta a Bernardo Pindela nos Azulejos, em que eu alegremente me rio dos discípulos do romanticismo que, depois de clamarem contra certos escritores, como realistas e chafurdadores do lodo, apenas imaginam que o público só esse lodo apetece, para seu consumo intelectual, se apressam a escrever na capa de seus livros: romance realista, para que o público, aliciado pelo rótulo, os compre também a eles, e os leia também a eles... E V. Ex.a., meu caro confrade, acrescenta logo com a mais consciente certeza: “Ora isto é comigo!”
Suponha que um dia, numa novela, V. Ex.a. descreve, com o seu vernáculo e torneado relevo, certo animal de longas orelhas felpudas, de rabo tosco, de anca surrada pela albarda, que orneia e que abunda em Cacilhas... E suponha ainda que, ao ler essa colorida página, eu exclamo, apalpando-me ansiosamente por todo o corpo: “Grandes orelhas, rabo tosco, anca pelada... É comigo!”
Que diria V. Ex.a., meu prezado confrade? V. Ex.a. balbuciaria aturdido: “Eu não sei, eu vivo longe... Se as suas orelhas são assim longas, e se o albardão o despelou, há realmente concordância... Mas, na verdade, creia que, mencionando esse animal venerável, não me raiou no ânimo a mais tênue, remota intenção...” Assim, embaraçado e surpreso, diria V. Ex.a. E assim eu digo. V. Ex.a. deve conhecer melhor que eu, que sou distraído e vivo longe, as capas dos meus livros; se V. Ex.a., para atrair a multidão, nelas colou ou consentiu que os seus editores colassem, esse rótulo: romance realista — por não poderem legalmente adorná-las com esse outro mais cativante: romance obsceno — então decerto aquilo é consigo. Mas a intransigente verdade me força a confessar que, escrevendo esse período da carta a Bernardo Pindela, eu não pensava no autor da Corja.
Se eu quisesse acusar dessa abjeta concessão, às exigências da venda, um homem que há trinta anos é ilustre na literatura portuguesa — teria escrito o nome todo de V. Ex.a., sem omitir um só título. Há personalidades a quem por isso mesmo que são fortes, se não alude timoratamente e de longe. Já deste modo se pensava na corte de El-Rei Artur. “Se queres falar de Percival, dize bem alto: Percival, e tira a espada.” Assim gritava esse cavaleiro, flor dos bons, na velha cidade de Camerlon, uma tarde em que havia algazarra e ciúmes junto à Távola Redonda. Não se trata, decerto, aqui, de compridas espadas a desembainhar. Mas não deixa de ficar bem a um débil homem de letras, como eu, o seguir essa lição de lealdade e valor dada pelo possante homem de armas Percival. Assim o exemplo aduzido por V. Ex.a., para demonstrar o meu escandaloso hábito de implicar consigo — é realmente mal escolhido. Mas permanece, todavia, a queixa, feita ao público com tanta rabugem e tanto azedume, de que — eu e os meus amigos, sempre que isso vem a talho de fouce, lhe assacamos aleivosias. Aleivosia é um termo formidável e sombrio que, se me não engana o vetusto e único dicionário que me ampara nesta dura labutação do estilo, significa — “maldade cometida traiçoeiramente com mostras de amizade, insídia, perfídia, maquinação contra a vida e reputação de alguém, etc.” Tudo isto é pavoroso. Mas eu suponho que, sob essas vagas palavras de implicação e aleivosia, V. Ex.a. quer muito simplesmente queixar-se de que eu e os meus amigos o não consideramos um escritor tão ilustre, com um tão alto lugar nas letras portuguesas como o costumam considerar os amigos de V. Ex.a. Ora aqui V. Ex.a. se ilude singularmente.
Eu nunca tive, é certo, a oportunidade deleitável de apreciar, nem em copioso artigo, nem sequer em curta linha, a obra de V. Ex.a. Mas sou meridional, portanto loquaz. Por vezes, entre amigos e fumando a cigarette, tem vindo “a talho de fouce” conversar sobre a personalidade literária de V. Ex.a. E, louvado seja Apolo aurinitente, sempre me exprimi sobre o autor do Esqueleto, de um modo que é irrecusavelmente mais digno dele e da sua obra, do que esse outro estranho modo por que o costumam decantar aqueles que se ufanam, já na palestra, já na imprensa, de serem seus amigos e seus discípulos. Porque eu, falando de V. Ex.a., considero sempre a sua imaginação, a sua maneira de ver o mundo, o seu sentimento vivo ou confuso da realidade, o seu gosto, a sua arte de composição, a fraqueza ou força do seu traço; e, pelo menos, admiro sem reserva em V. Ex.a. o ardente satírico, neto de Quevedo, que põe ao serviço da sua apaixonada misantropia, o mais quente e o mais rico sarcasmo peninsular.
E os seus amigos, esses, admiram apenas em V. Ex.a., secamente e pecamente, o homem que em Portugal conhece mais termos do dicionário! Sempre, “a todo o talho de fouce”, em artigo, em local, em anúncio de partida, em felicitação de dia de anos, V. Ex.a. é pelos seus discípulos e amigos louvaminhado e turibulado — como o grande homem do vocábulo, esteio forte de prosódia, restaurador da ordem gramatical, supremo arquiteto das frases arcaicas, acima de tudo castiço, e imaculadamente purista! E ainda mais na intimidade, os amigos de V. Ex.a. o celebram como o homem que melhor sabe descompor o seu semelhante! E isto tão obstinadamente murmurado ou clamado, que esta geração mais nova, para quem já vou sendo um velho e V. Ex.a. quase um fantasma, não tendo como eu e os do meu tempo rido e chorado sobre os seus livros de paixão e de ironia, o imaginam a V. Ex.a. um intolerável caturra, de capote de frade, debruçado sobre um sebento léxicon, a respigar termos obsoletos para com eles apedrejar todos os seus conterrâneos!
A V. Ex.a, crítico sagaz de si mesmo, melhor compete avaliar o que, neste vale de prosa e lágrimas, tem feito para merecer que os seus amigos, como os amigos de César no dia das lupercais, teimem em lhe enterrar até aos ombros esta dupla e pesada coroa da vernaculidade e da descompostura. A mim só me compete lamentar que a estas mofinas proporções tenha sido reduzida, pelo zelo crítico dos seus amigos, a larga individualidade que nos deu o Amor de Perdição. Mas ao mesmo tempo adquiro o direito de rogar a V. Ex.a. que, quando se queixar aos ventos e ao Chiado das pessoas que implicam consigo, como V. Ex.a. diz, ou que desdouram a sua glória, como eu traduzo, não se volte para mim e para os meus amigos — mas olhe em torno de si para os seus admiradores, e para dentro de si mesmo, talvez. A guerra de realistas e idealistas, causa primordial destas explicações, tornou-se já quase tão desinteressante e cediça, meu prezado confrade, como a guerra dos clássicos e românticos, a das Duas Rosas, ou essa outra que, para vantagem única dos livreiros que editam Homero, dous povos semibárbaros tiveram a paciência de arrastar dez anos em torno de uma vila da Ásia Menor murada de adobe e tijolo. Renovar tão antiquada guerra nas gazetas, é já um ato imperdoavelmente provinciano; mas mais provinciano ainda é estarmos nós aqui, com grãos de incenso nas mãos, e pedras nas algibeiras, fazendo, através do grande mar, mútuas e lentas mesuras. V. Ex.a., de lá, dentre os seus sinceros arvoredos minhotos, ajanota as suas frases pelos figurinos de Filinto Elísio, para me dizer gaguejando, e com agridoce generosidade: “O meu caro amigo tem muito talento, com exceção de escrever muita tolice”. E eu de cá, mais pérfido, porque habito as cidades, grito sem gaguejar, e com polida efusão: — “E o meu caro amigo tem ainda muito mais, sem exceção absolutamente nenhuma”.
É infantil. Antes desperdiçássemos o nosso tempo, preguiçando patriarcalmente, neste doce calor de junho, sob a figueira e a vinha... Mas quê! V. Ex.a., que estava brincando funebremente, a fazer no soalho, com tochas de fósforos, uma procissãozinha de moribundos, ergue-se de repente, corre para o público, mesmo sem tirar o babeiro, e acusa-me, entre lágrimas de furor, de estar sempre a implicar consigo! Que havia eu de fazer, eu inocente e justo? Corro também para o público, mesmo de jaquetão de trabalho, e brado profusamente com as mãos sobre o peito: “Nunca! É falso! Jamais impliquei com ele, e não lhe quero senão bem!”
A culpa de toda esta inútil prosa é portanto toda sua; e para que ela se não prolongue mais, apresso-me, prezado confrade, a dizer-me
De V. Ex.a.
Sincero e antigo admirador
Eça de Queirós
Do que se salvou Eça !
Disso, fala-nos o nosso maravilhoso Aquilino, nesta não menos maravilhosa aquisição
de um pobre e cada vez mais arruinado leitor,
este vosso criado...

Aquilino Ribeiro, Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais, Bertrand, 1ª Ed., 1949, p. 237
domingo, novembro 10
100 de Sena (8)

"Do ponto de vista cultural, Jorge de Sena sustentou que “toda a cultura é de esquerda, pelo que representa de contestação da injustiça, da desigualdade, da opressão”. “Cultura de direita” nunca haveria, portanto. Existiria, quando muito, uma “cultura conservadora”, cujos contornos, porém, Sena não especificou. Referiu, noutro lugar, que “a “esquerda” é por necessidade uma forma superior de inteligência”, razão pela qual se mostrava impressionado por muita da esquerda portuguesa “ser tão boçal”, e, mais grave ainda, por faltar à verdade aos cidadãos, preocupando-se tão-só em “vender o seu peixe”, “sem escrúpulo nem rebuço”. Em matéria de costumes, revelou-se um liberal radical, alguém que entendia que “numa sociedade equilibrada e livre, a “moral” não deve exceder o nível de apenas regulamentar a eficiência das relações sociais no âmbito da estrutura do Estado”. Contudo, e no que parecia ser uma atitude antifeminista, considerou que o “caso das Três Marias” fora mal apresentado na imprensa internacional, como se o livro tivesse sido atacado por apoiar o movimento das mulheres, quando tais ataques se dirigiram, isso sim, à obra em si, não ao tema nela versado. Afirmou-se, na ocasião, um defensor dos direitos das mulheres, um denunciante da “síndrome do machismo” patente na sociedade portuguesa (num verbete de dicionário dedicado ao amor, assinalou que “a mulher portuguesa sabe a que ponto os homens vivem no seu esófago ou no seu útero”)."António Araújo, A política em Sena
Subscrever:
Mensagens (Atom)


